quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Voto consciente na praia

Em novembro de 2008.

Foi empolgante a disputa eleitoral para prefeito do município do Rio de Janeiro, cujo 2º turno ocorreu em 19/10/2008, envolvendo os candidatos EDUARDO PAES e FERNANDO GABEIRA.

Uma primeira surpresa foi o fato de GABEIRA, contrariando previsões iniciais, ter derrotado os candidatos MARCELO CRIVELA e JANDIRA FEGHALI na preferência do eleitorado, valendo-lhe a ida ao confronto direto com PAES. Estando as pesquisas apresentando empate técnico até o momento final, a eleição foi decidida por pequena margem de votos, pouco mais de 50.000 em um total de 4.581.275 votantes.

Apesar da derrota, pode-se dizer que a cruzada de GABEIRA foi bem sucedida tendo em vista o frágil esquema político em que se apoiou. Utilizando de forma muito original seu tempo de propaganda nas rádios e emissoras de televisão, conseguiu ótima acolhida no Centro e nos bairros da Zona-Sul do Rio, considerados “áreas nobres” da cidade, o que já se espalhava para as demais regiões. Para muitos, a parcela mais consciente e politizada do eleitorado estava com ele.

Contudo, um ato falho do candidato colocou uma enorme pedra em seu caminho: ao referir-se à vereadora LUCINHA, sua aliada e com grande liderança na Zona-Oeste, disse que ela tinha uma “visão suburbana de política”, sendo ouvido por jornalistas na ocasião. De nada valeram os pedidos de desculpas e outros atos por ele praticados para amenizar o caso; o estrago já estava feito e foi explorado inteligentemente pelo adversário.

O comentário acima referido, inábil e inoportuno, foi tomado como uma ofensa nas circunstâncias em que foi feita, não apenas à vereadora em causa mas a todos os habitantes dos subúrbios e bairros afastados do Centro e da Zona-Sul.

Uma “visão suburbana”, que equivale a “visão provinciana” quando praticada no âmbito da Federação, é, na verdade uma qualidade que nossos representantes no Congresso não possuem, em detrimento dos interesses mais imediatos deste Estado, sem prejuízo dos temas de interesse geral da Nação.

Considera-se “provinciana”, em política, a reivindicação de postos na administração pública e de obras ou serviços de interesse apenas local e regional. Como nossos parlamentares hesitam em adotar tal postura, muito perde o Estado do Rio de Janeiro porque não é isto o que os outros fazem. Por outro lado, para que se possa saber exatamente o que se passa nas entranhas governamentais e, assim, identificar as boas oportunidades, é necessário ocupar posições na administração. É preciso união entre os políticos de todos os partidos e tendências quando está em jogo ações de interesse do Estado. Que sirva de exemplo a atitude de deputados de Sergipe ao fecharem questão contra a aprovação do orçamento da União para 2007 sem a inclusão de uma pequena ponte nos arredores de Aracaju.

A grande verdade é que o Estado do Rio vem sendo marginalizado sistematicamente desde sua fusão com o Estado de Guanabara, não sendo reconhecida como deveria sua importância demográfica, econômica e cultural. É pífia sua representatividade em todos os poderes da República.

É evidente que a vereadora LUCINHA, legítima e direta representante de comunidades de um subúrbio distante, não poderia ter a mesma visão dos políticos de Copacabana, resquício dos tempos em que o Rio era o Município Neutro, o Distrito Federal. Por conseguinte, a expressão “visão suburbana de política”, aplicada ao caso, não encerra em si ofensa alguma. É de supor-se que ela tenha decorrido das negociações preliminares do candidato com a vereadora, em que esta tivesse apresentado reivindicações de seu território, de seu povo.

Para os mais vividos, aconteceu um fenômeno semelhante com uma frase dita pelo brigadeiro EDUARDO GOMES quando se candidatou à Presidência da República pela primeira vez: “Não preciso dos votos dos marmiteiros”. Na verdade, ele referia-se apenas aos aproveitadores.

Ao aproximar-se o dia do pleito, GABEIRA passou a preocupar-se com o ponto facultativo decretado pelo Estado para comemoração do dia do funcionário público, antecipando-o do dia 28 para 27 de outubro, uma 2ª-feira, o que determinava um fim de semana prolongado para a categoria. Em sua cabeça, se tal período fosse ensolarado, ele seria prejudicado em razão da maior mobilidade dos eleitores de seus principais redutos eleitorais; por isto, fez alertas a respeito em seus últimos programas de rádio e TV.

E eis que, confirmando as previsões climáticas, aqueles dias foram maravilhosos, com muito sol e praias convidativas, único fato capaz de justificar tão elevada abstenção, atingindo a média de 20,24%.

O resultado das urnas demonstrou que os campeões de abstenção foram o Centro e bairros da Zona-Sul, enquanto os campeões de presença estavam nos mais distantes subúrbios da Zona-Oeste, como Santa Cruz, Campo Grande, Guaratiba, Realengo, Santíssimo e Bangu; pode-se concluir, então, que estes tiveram bem maior comprometimento com a política, derrubando o mito de que a classe alta é mais politizada.

Os números apurados no pleito não permitem afirmar se o feriadão foi ou não decisivo, até porque as pesquisas de opinião já vinham indicando o crescimento da candidatura de PAES antes da decisão governamental, após as palavras de GABEIRA sobre a vereadora LUCINHA.

Nenhum comentário: