quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Torres e chaminés

Em agosto de 2008.

Há pouco mais de 1 século, teve início em Cambuci a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, projetada pelo arquiteto italiano RAVAGNELLI e a quem caberia ainda a condução da obra.

O terreno já estava disponível: uma gleba de aproximadamente 8.000 m2 já doada à Diocese de Campos pela senhora conhecida como MARIA JACOB, que compreendia, além dos próprios atuais da sede paroquial, a praça e o trecho de rua fronteiriços, e a área hoje ocupada pelo prédio do Banco ITAÚ.

De acordo com o planejamento estabelecido, seria inicialmente erguida a torre e toda a fachada da igreja, ficando a nave e outras dependências para uma segunda etapa.

A edificação ali de uma torre de 40 m de altura com aquelas características constituía um grande desafio para a época, em que os recursos existentes eram mínimos: não havia água encanada, fornecimento de energia elétrica e nem veículos automotivos com motores a explosão; e ainda não havia sido desenvolvida a tecnologia do concreto armado, sendo as peças estruturais preparadas com óleo de baleia.

Era intenso o emprego da força humana e de animais de carga para transporte dos materiais. A este propósito, recordo-me do comentário de minha saudosa mãe – que teria entre 10 e 12 anos de vida quando da construção da torre, de que as etapas mais críticas do trabalho eram feitas em mutirão, envolvendo operários e colaboradores do povo. Dizia ela que, em tais ocasiões, RAVAGNELLI colocava todos a cantar uma música apropriada para dar ritmo às ações e torná-las mais produtivas e prazerosas. E, mais, chegou a cantarolar tal música para mim e uma de minhas irmãs.

A igreja ficaria voltada para o poente.

Terminada sua primeira e mais importante etapa, o arquiteto resolveu fazer uma viagem à Itália para complementá-la em seu retorno; contudo, foi fatalmente vitimado por um naufrágio, fazendo com que o empreendimento fosse transferido para outro construtor.

Por sua imponência e elegância, o monumento tornou-se uma referência para a cidade, sendo motivo de orgulho para os cambucienses, independentemente de credo religioso.

Abrangendo também o seu significado místico, o grande poeta cambuciense ARY DE OLIVEIRA, já falecido, escreveu um notável poema sobre ela, cuja primeira estrofe vai abaixo transcrita:

“Quem chega a Cambuci, venha do norte ou do sul,
Sendo noite ( nublado ou firmamento azul ),
Vê, pendente do céu, fulgurante de luz,
Como marco de fé e de afeto à promessa –
Saudando o forasteiro e o filho que regressa,
Na torre da Matriz, o emblema de Jesus.”

Nos dias atuais, lamentavelmente, já não correspondem à realidade os inspirados versos do ARY, em virtude do advento da telefonia celular combinado com o descaso das concessionárias e das autoridades com a conservação do ambiente urbano, instalando aquelas suas gigantescas torres em qualquer local. A primeira delas, de altura muito superior a da Matriz, impede ou prejudica a visão desta para quem chega de Portela, ou seja, justamente para onde está voltada sua fachada.

Uma ocorrência como esta seria impensável em qualquer país que se preocupe minimamente com a preservação de seu patrimônio histórico e artístico.

Além disto, modificações introduzidas na rede elétrica da Rua Maria Jacob também agridem de forma absurda a fachada da Matriz, com a instalação de um transformador de distribuição bem em frente à mesma. Neste caso, a solução é muito simples e pouco onerosa, bastando que o poste seja deslocado uns 10 m para a esquerda e que todos os condutores defronte a igreja passem a constituir circuitos subterrâneos.

E aquela linda chaminé da usina de açúcar da extinta Cia. Minéria e Agrícola, que fim levou? Senti muitíssimo a falta dela quando de minha mais recente visita a Cambuci. Espero que sua demolição tenha sido necessária porque, embora de propriedade privada, ela representava uma fase importante da história econômica do Município.

2 comentários:

Romildo Guerrante disse...

Meu caro Raphael,

Dois assuntos: louvar o novo blogueiro da praça, ativo aos 78 anos, e fazer coro à queixa contra as malfadadas torres de telefonia de Cambuci.
Ainda bem que você notou a interferência caótica dessas obstruções no cenário que se visualiza ao chegar de Portela. Por que não botaram as torres, ou melhor, uma só torre, em convênio de todas as operadoras, num dos morros mais altos da cidade, mas fora do miolo urbano? Da forma como estão sendo feitas essas coisas, o que apreciar em termos de harmonia urbanística? Nada, literalmente nada!
Pois essas torres, além de enfearem a cidade, ainda põem em risco a saúde de seus moradores, com cargas eletromagnéticas fortes e constantes. O que não ocorria com a torre da Minéria, tão-só uma construção funcional e esteticamente enlaçada na memória visual. É preciso que os moradores de Cambuci constituam um grupo para-parlamentar, como o que ocorreu em São Fidélis na década de 60, para socorrer o gestor público no enfrentamento de grandes interesses prejudiciais à cidade. Ou, em vez de acudi-lo, acicatá-lo quando se aliar, por fraqueza ou cumplicidade, a interesses alheios aos cidadãos.
Meu abraço e meus parabéns

Romildo Guerrante

Raphael Guerrante Gomes disse...

Romildo,
Fiquei muito feliz com sua competente e imediata manifestação sobre meu blog.
A propósito de sua observação a respeito de compartilhamento de torres de telefonia por diferentes concessionárias, espero ter oportunidade de sugerir ao futuro Prefeito que promova um estudo para verificar a viabilidade técnica da medida naquelas circunstâncias.
Raphael