sábado, 17 de julho de 2010

Rumo ao Romão

A Cachoeira do Romão é um importante acidente hidrográfico no curso do Rio Paraíba do Sul, localizado no trecho entre Cambuci e Pureza. Eu só a conhecia de nome.

Recentemente, ficou mais em evidência diante do propósito governamental de construir ali uma usina, que teria uma potência irrisória diante da magnitude da intervenção ambiental.

Uma pessoa bem próxima e amiga ficou muito admirada quando lhe revelei que nunca tinha ido a tal cachoeira; para ele, que foi na juventude um pescador profissional na região e perfeito conhecedor do rio, parecia inconcebível que eu, nascido e criado em Cambuci, jamais tivesse visto aquela maravilha da natureza, que não é percebida por quem passa por sua margem esquerda.

A partir daí, teve início um processo de cobrança no sentido de que eu, em uma de minhas viagens à terrinha, me dispusesse a corrigir tão grave omissão.

Chegou, enfim, o dia em que me encontrei com o amigo e, num impulso, disse-lhe que estava pronto para conhecer o Romão. Isto bastou para que ele entrasse rapidamente em contato com pescador do lugar, dono de uma potente lancha, para programar a pretendida visita. Foi tudo muito rápido: logo estávamos nós embarcados com a roupa do corpo, sem colete salva-vidas, capacete ou qualquer outro equipamento de segurança, e partimos rio abaixo.

Na minha cabeça, quando chegássemos próximo ao nosso destino, alguém iria dizer-me:

- Isto aí é o Romão! – pode olhar e fotografar, se quiser!

Mas não foi assim que aconteceu; o piloto partiu pra dentro do cachoeirão sem qualquer aviso prévio. Logo de cara, um tranco fez a lancha voar uns 15 metros e cair na frente com um impacto capaz de espatifá-la.

Em seguida, com grande habilidade, o piloto levava a lancha para a esquerda e para a direita, desviando-se de pedras ameaçadoras; em uma delas ele ancorou, mergulhava e vinha à tona com 3 camarões sapateiros – crustáceos típicos do lugar-, 1 na boca e 1 em cada mão, e os atirava para que nós os guardássemos.

Chegamos finalmente ao remanso; foi um grande alívio pra mim. Dali nos dirigimos à margem direita. Tomei então conhecimento de que retornaríamos pela mesma rota, o que era lógico, pois lancha não navega por terra.

Apesar de já possuir alguma experiência, a adrenalina subiu bastante durante o percurso inverso; alcançado o topo, voltamos ao ponto de partida. Daquela vez, todos se salvaram...

Tomei o caminho de casa sentindo-me um herói; e, antes mesmo de lá chegar, fui abordado por outro grande amigo, figura boníssima e conhecidíssima na cidade; como aposentado, pode percorrê-la de bicicleta o dia inteiro, e dar conta de tudo o que nela acontece. Foi logo dizendo:

- Tô sabendo, Doutor, que o senhor desceu o Romão com o DADAU!

Ao que lhe respondi com orgulho:

- Não só desci, como subi também!

- O DADAU é maluco, Doutor!

Aí, já era tarde.

Mas não é bem assim: o rapaz é simpático, atencioso, prestativo, habilidoso e sensato; só que, às vezes, é um pouco audacioso demais.

A aventura é imperdível. Vale a pena, eu recomendo.

Reminiscências de infância

Passei minha infância na “Chácara do Sossego”, hoje integrada ao perímetro urbano da cidade de Cambuci, onde vivi muitas experiências agradáveis ao lado de meus pais, 9 irmãos, muitos empregados, primos e agregados. Era como se estivéssemos em permanente festa; de tudo aquilo:


-ficou o sabor das inúmeras e saborosas frutas, colhidas com minhas próprias mãos;

-ficou a alegria dos piqueniques na Caixa D’Água e de variadas brincadeiras infanto-juvenis;

-ficaram os sons dos caxambus à distância e das harmoniosas folias de reis, estas algumas vezes em nossa sala;

-ficou o encantamento das Festas de Maio, que culminavam com a coroação de Nossa Senhora;

-ficou a lembrança de nossos passeios à Fazenda do Retiro, quando viajávamos em carro de bois;

-ficou um pouco do temor provocado pelas assustadoras histórias de sacis-pererê, mulas sem cabeça e lobisomens que SÁ LUIZA contava às crianças, quando, chegada de sua roça, hospedava-se em nossa casa;

-ficou, ainda, a admiração que tínhamos ao ver aquela idosa e sinistra senhora fumar seu pequeno cachimbo de barro e cuspir, seguidamente, a 10 metros de distância;

-ficou a lembrança daquelas noites de maio em que, descalço e com calças curtas, assistia aos leilões da igreja realizados sob o martelo do Sr. ROMUALDO MATOLA, tendo meu pai MANOEL GOMES como tesoureiro.


Expostos todos ao sereno e ao frio, um produto era regularmente oferecido pelo leiloeiro:


- Quanto me dão por uma dose de vinho do Porto “Madeira R” ? Já tenho um mil réis!


A extensão e as características do espaço físico exclusivo de que dispúnhamos para brincar permitiam-nos praticar inúmeras atividades divertidas e, às vezes, perigosas e preocupantes, sobretudo as que se realizavam sob inspiração de meu irmão SANTINHO. Eu, por exemplo, tinha muita dificuldade de subir em árvores, mas subia; até que desisti quando, no alto de um pé de jenipapo, pus a mão em cima de uma casa de marimbondos. Permitia, também, que tivéssemos muitas árvores – as frutíferas e as da capoeira - e criação de aves, porcos e cabras, além de uma enorme horta.


Um pequeno e movimentado campo de futebol foi construído na várzea, mas eu preferia treinar e jogar no infantil do FLORESTA A.C.; um dia chutei o chão e quase quebrei meu pé. O socorro foi rápido: o treinador ordenou que todos os garotos urinassem sobre a área afetada.


O projeto de minha mãe de produzir seda era muito interessante; contudo, não deu o resultado esperado. Dele restaram duas alas de amoreiras – suas folhas alimentavam as lagartas, o bicho da seda; as frutas, comíamos nós – que atraía uma infinidade de pássaros, sobretudo sanhaços e guachos, os quais eram impiedosamente caçados por mim e primos.


Vigiávamos atentamente as galinhas poedeiras; quando elas anunciavam seu feito em qualquer ponto do quintal, recolhíamos seus ovos e íamos correndo fazer um bate-bate, uma iguaria feita com ovos frescos crus batidos, com acréscimo de farinha de mandioca e açúcar.


Na lavagem de roupa daquele povo usava-se uma bacia de grandes dimensões, que nós utilizávamos também como embarcação nas grandes enchentes, em que a água represada do Valão Dantas atingia as partes mais baixas de nossa chácara. Saíamos de bacião, como a denominávamos, pelo mangueiral da TIA PITULA, causando admiração, espanto ou preocupação em muita gente.


SÃO JOÃO era festejado com a tradicional fogueira, batata doce e fogos, com a presença de muitos parentes e amigos; não faltava quem, no final, passasse sobre as brasas caminhando ou correndo descalço. Eventualmente, deliciávamo-nos com desafios cantados, protagonizados pelo repentista OSMAR BESSA.Praticávamos como pilotos de corrida de uma Fórmula Especial, vencendo um desnível de 30 m desde a Caixa D’Água até em baixo, em uma estradinha de terra cheia de curvas, a bordo de um pequeno veículo artesanal acionado por gravidade, todo em madeira e com rodas de ferro, de fabricação própria. Coisa pra gente grande, mas eu participava das disputas.

A presença do TOMIX em minha infância, de meus irmãos menores e de todos os da casa foi muito importante e inesquecível. Cão mestiço forte e valente, de pelo curto e trigueiro, superinteligente e amigo fiel, servia ele para guarda, caça e brinquedo para as crianças. Qualquer pessoa ou animal que penetrasse em seu território sem os devidos cuidados seria atacado e expulso; sua docilidade com as crianças chamava a atenção, e não atacava quando estava fora dos estritos limites da propriedade. Matou dezenas de jararacas: de uma bocada, se estivessem enroladas; ou apanhadas pelo meio e sacudidas até partirem-se em duas, se
em movimento. Muitos gatos mais lerdos ou distraídos também se deram mal. Mordeu muita gente importante e até um mendigo, o MANÉ BODE. Mas havia um verdureiro e vendedor de bananas que vinha lá da Cristalina com duas cestas enormes e entrava na chácara sem pedir licença: ele conseguia cercar o animal com suas cestas até que aparecesse alguém da família para socorrê-lo.

O TIO VICENTE, irmão mais velho e muito amigo da mamãe, também teve seus momentos com o TOMIX. Era ele um assíduo frequentador de nossa casa, onde mantinha longos papos
em família. Por dever de ofício, teve que mudar-se para Miracema, onde morou cerca de 2 anos. Ao retornar, sem saber que lá havia um novo morador, cuidou logo de ir visitar sua irmã; ao tentar fazê-lo, levou uma carreira monumental do cachorro. Sua reação imediata foi escrever um bilhete mais ou menos nos seguintes termos:

- Natalina, enquanto você tiver aí essa fera eu não vou mais
visitá-la.


Minha mãe não pôde fazer nada porque o animal já criara sólidas raízes naquele território.


Aconteceu que, certo dia, entrou ele na loja de meu pai, que ficava na praça da cidade, e lá estava o TOMIX deitado. Bastante ressabiado, ele olhou para o bicho, que se levantou alegremente fazendo festa para ele, a qual se tornava mais efusiva à medida que estalava seus dedos. Rapidamente pensou:


- É hoje que eu vou ver Natalina.


Ato contínuo, saiu para a rua em direção à chácara, sempre estalando os dedos e recebendo em troca amigáveis manifestações do seu acompanhante. Caminhou até a porteira da chácara, que ficava a uma distância aproximada de 300 m, quando teve uma desagradável surpresa: o cachorro passou para o lado de dentro e arreganhou-lhe os dentes ameaçadoramente.


Tanto fez TOMIX que acabou picado na testa por uma cobra e, muito pior que isto, sendo castrado.


Nós, os menores, tínhamos grande admiração por nosso irmão SANTINHO, dotado de muita ousadia e múltiplas inteligências; além disto, era ele muito carinhoso conosco e nos proporcionava muitas brincadeiras divertidas, ora construindo circos, balanços, moinhos d’água, ora preparando o bacião ou armando as fogueiras. Até mesmo o choquinho foi descoberto por ele, que consistia em fazer com que um de nós trepássemos em uma cadeira e colocássemos o dedo em bocal de lâmpada pendente, formando, em seguida, uma fila de mãos dadas a fim de que todos participássemos da brincadeira. Quê loucura! Naquele tempo a tensão da rede elétrica era tão baixa que só sentíamos uma pequena dormência; as lâmpadas, quando acesas, mais pareciam um tomate maduro.Houve um ano em que não tivemos o Natal de costume, em que meu pai, após encerrar os trabalhos em sua loja, levava para casa nossos presentes já tarde da noite do dia 24. Como aquele dia amanhecera sem energia elétrica, foram mobilizados os recursos do estabelecimento para enfrentar aquela eventualidade, com a instalação de lampiões nos locais estratégicos. Mas SANTINHO preocupara-se também com a situação da praça caso a energia não retornasse até o anoitecer, e resolveu fazer um facho capaz de iluminá-la.

Valendo-se de seus conhecimentos, pegou no almoxarifado da loja um tubo de papelão duro, daqueles próprios para enrolar cetim, que mediam aproximadamente
90 cm de comprimento por 6 cm de diâmetro, bloqueando uma de suas extremidades; em seguida, arranjou salitre, carvão e enxofre, ingredientes básicos para fabricação de pólvora artesanal. O próximo passo foi encher o tubo já preparado com a tal pólvora, e aguardar os acontecimentos.

Eis que a noite chegou, mas a energia não, deixando todos os logradouros às escuras. SANTINHO, então, reuniu seus companheiros de fuzarca, apanhou o artefato, acendeu-o e saiu pela praça, proporcionando uma iluminação feérica, para deslumbramento de todos. Porém, ao passar em frente a um bar, um taxista alcoolizado partiu em sua direção com o propósito de acabar com aquela cena. Disputaram, os dois, a posse do facho até que o intruso fez menção de tapar a saída do fogo. Sabedor do perigo que aquilo representava, SANTINHO largou o artefato na mão do outro e saiu fora. Deu-se uma explosão que arrebentou a mão do infeliz.


Havia na cidade uma baratinha, modelo de carro lançado naquela época que se tornou famoso, e que muita inveja deveria despertar em alguns, que também merece um lugar nesta história. Ela pertencia ao Padre ROCHA, que com ela desfilava muito à vontade e orgulhosamente pelas ruas do lugar. Eis que chegava ele de São João do Paraíso pela estrada que margeava terras da nossa chácara. Lá estava SANTINHO debaixo de uma goiabeira quando a avistou com a capota arriada, no rumo da cidade. De imediato, ocorreu-lhe pegar uma goiaba podre para – tudo indica – arremessá-la contra o parabrisa do veículo; contudo, desta vez não foi preciso em sua pontaria e acertou, em cheio, a testa do pároco, o qual seguiu em frente como pôde, sem reclamar.


A vítima, já antiga na cidade, conhecia bem sua jurisdição e seus paroquianos, e não teve dificuldade em intuir de quem poderia ter partido aquela provocação. Dias depois, haveria aula de catecismo ministrada pessoalmente por ele, à qual SANTINHO deveria comparecer. Preocupado com o acontecido, sobre o qual só ele e o seu padre tinham conhecimento, disse à sua mamãe que não queria ir à aula na igreja, obtendo a seguinte resposta:


- Nada disto! Já na semana passada você comeu banana d’água só para ficar com dor de cabeça e não ir lá; mas hoje você vai nem que seja arrastado pelas orelhas.


E lá foi ele bastante assustado.


Ao vê-lo ao seu alcance, deve ter pensado o padre:


- É hoje que eu começo a acertar as contas com este pirralho!


Ele tinha por hábito ministrar suas aulas com uma vareta ponteaguda na mão. SANTINHO, que mais tarde o reconhecemos como um hiperativo, tinha grande dificuldade de assistir às aulas da escola ou, mesmo, de permanecer parado em qualquer lugar, sendo muito fácil imaginar sua situação em uma aula de catecismo. Por isto, ele distraia-se com frequência, e, quando tal ocorria, era futucado bruscamente nas costelas com a pergunta:


- Não é mesmo, Seu MANOEL DOS SANTOS?!


Assim, recebeu ele de
3 a 4 futucadas nas costelas por aula até o final do curso, sem dizer nada em casa.

Mas havia uma grande predominância das atividades lúdicas tranquilas e ingênuas desenvolvidas pelos menores. A cada novo ano repetia-se esta brincadeira: o vento do noroeste, que soprava então com regularidade no mês de agosto, já nos encontrava equipados com grandes e multicoloridas pipas habilidosamente confeccionadas por meu pai. Nós a empinávamos alegremente ao cair daquelas tardes.