sábado, 23 de maio de 2009

Um Concurso de Miss

Houve uma época – a segunda metade da década de 60 – em que eu, por dever de ofício, mantinha um estreito contato com vários jornalistas de Niterói, tendo sido mesmo amigo de alguns deles.

Eu residia bem no centro da cidade e, à noite, comparecia com certa frequência à calçada próxima ao então Café Santa Cruz, e a outro que existia na esquina da Rua da Conceição com a Praça Arariboia, os quais eram as grandes referências para ponto de encontro e batepapo entre amigos.

Foi lá que, numa sexta-feira, fui abordado e convidado por um grupo deles, que incluía um cronista social, para uma festa no FLUMINENSINHO, clube que ficava na Rua Visconde do Rio Branco, nas imediações do Colégio Plínio Leite. Todos eles estavam engravatados e eu muito à vontade, com uma calça de brim e uma camisa de malha com mangas curtas; por este motivo, relutei muito em aceitar o gentil convite, mas a insistência foi tanta que não resisti, até porque eu não estava realmente fazendo nada de mais agradável naquele momento. Por fim, entrei no carro e rumamos para o clube.

Éramos quatro, e fomos todos muito bem recebidos quando chegamos a nosso destino, sendo logo encaminhados para uma grande mesa bem localizada no salão e ornamentada com muito bom gosto. Uma excepcional boca-livre estava garantida.

Rolava uma festa de arromba: baile com grande orquestra; ambiente todo decorado; e pessoas muito bem vestidas, mulheres de longo, homens com passeio completo e, até, traje a rigor. Estes fatos deixaram-me bastante constrangido.

Lá pelas tantas, um animador profissional, daqueles com gravata borboleta, interrompeu o baile para anunciar que, dentro de minutos, seria dado início ao desfile para a escolha da “Miss Turismo Estado do Rio”, e que, naquele momento, estava sendo montada a Comissão Julgadora, a qual seria de altíssimo nível, acima de qualquer suspeita. Só então fiquei sabendo o motivo daquela festa.

Não tardou muito, e lá estava de novo o animador para a convocação dos jurados:
- Convidamos a fazer parte da Mesa, para integrar a comissão, o Dr. FULANO DE TAL, presidente da EMBRATUR;
- Convidamos, também, para integrar a comissão, o Dr. BELTRANO, presidente da FLUMITUR; - Convidamos o Assessor de Comunicação Social da Secretaria de Estado de Turismo, DR. SICRANO, para fazer parte da comissão;
- Convidamos a Srta. FULANA, Miss Turismo do ano passado e ex-Miss Maricá, para compor a comissão.

Mais outras duas pessoas foram chamadas com o mesmo objetivo, todas bem intituladas e apresentando-se elegantemente vestidas. E, por último, foi a vez da chamada daquele designado para a presidência:
- Convidamos para presidir a comissão o DR. RAPHAEL GUERRANTE GOMES, Diretor da “Centrais Elétricas Fluminenses.”

Surpreso, não atendi ao primeiro chamado; contudo, insistiu o animador:
- Convidamos o DR RAPHAEL GUERRANTE GOMES, aqui presente, a fazer parte da comissão, assumindo sua presidência.

Empurrado pelos “amigos” jornalistas, levantei-me e atravessei o salão com minhas mangas curtas.

Apesar de tudo, fui muito bem acolhido pelos colegas da Mesa, em especial pela ex-Miss, de quem eu era um velho conhecido do bairro do Ingá.

Passadas as devidas instruções sobre o concurso aos membros da comissão, foi-nos concedido um breve tempo para que nos organizássemos. Rapidamente, montei as planilhas individuais cobrindo as três fases do concurso, bem como uma planilha de totalização. Por considerar que a eleita provavelmente não iria exibir-se de maiô em missões oficiais, fiz a seguinte proposta ao grupo:
a) o julgamento seria preponderantemente fundamentado no desfile em traje de noite;
b) o desfile com maiô só serviria para corrigir graves distorções;
c) o julgamento já deveria estar concluído quando do desfile conjunto das candidatas.

Todos acharam a idéia genial, e assim seria feito. O animador foi avisado de que a comissão estava preparada, podendo ser dado início ao concurso.

A primeira a desfilar foi espetacular, por ser bonita, simpática e apresentar-se muito bem, tendo sido muito aplaudida. Quando foi anunciada a segunda, o clube veio abaixo; uma claque agressiva gritava freneticamente:
- É essa! É essa! Já ganhou!

A moça, que já não era muito instrumentada para o posto, desconcentrou-se e fez um péssimo desfile.

Neste momento, a ex-Miss da comissão que eu, sabiamente, havia escolhido para secretária, sussurrou em meu ouvido esquerdo:
- Raphael, isso vai dar babado!

No pequeno intervalo até a próxima fase, passamos aos demais membros, com a máxima discrição, que a situação estava perigosa para nós, uma vez que a segunda candidata, por estar representando o anfitrião e não reunir condições para ganhar, deveria ficar em 2º lugar, como princesa. Era o mínimo que poderíamos fazer para salvar o concurso e, quem sabe?, nossa pele. A turma era muito cordata, e aderiu também a esta ousada proposta.

Não houve problemas, pois todos repetiram as notas da 1ª fase e colocaram a moça do clube em 2º lugar; assim, foi-nos possível assistir ao desfile conjunto das candidatas com o resultado já fechado.

Ultrapassadas todas as etapas, o animador comunicou ao público que seriam concedidos 15 minutos para que a comissão indicasse as vencedoras; enquanto isso, continuaria o baile. Na sequência, dirigindo-se a mim para repetir a mensagem, eu entreguei-lhe os mapas de julgamento, sugerindo-lhe que mantivesse o prazo para a divulgação em proveito do suspense; ele, por sua vez, mostrou-se admirado com nossa agilidade.

Retornei então à base disposto a dizer aos amigos jornalistas que minha missão estava cumprida e que eu iria embora, o que fiz efetivamente. Eles insistiram para que eu ficasse mais um pouco e, por fim, que ao menos dissesse-lhes, como furo, quem havia sido a vencedora. Minha resposta foi curta e grossa:
- Furo é o cacete!

E caí fora com a secretária...

Raios e Pararraios

Certo dia, há quase 60 anos, numa época em que o clima em Cambuci era bem diferente do atual, a cidade foi atingida por uma forte tempestade, com grande quantidade de chuva acompanhada de muitos relâmpagos e trovões, alguns deles assustadores.

No dia seguinte, passada a tormenta, fui abordado por uma pessoa amiga, que residia relativamente próximo à Igreja Matriz, sendo surpreendido com perguntas relacionadas com os raios e pararraios, todas muito oportunas e inteligentes. No fundo, o que ele queria saber é se sua casa estaria protegida pelo pararraios instalado na torre da igreja e, ainda, se tal equipamento comportaria ações de manutenção.

Embora eu possuísse conhecimentos suficientes para prestar-lhe alguns esclarecimentos, havia um problema maior da parte dele em poder absorvê-los, tendo em vista seu nível de instrução. Tentei então contornar as dificuldades associando o funcionamento dos pararraios ao das válvulas de pressão, com resultado bastante satisfatório.

Como as tempestades elétricas assustam muito, e os centros de pesquisa especializados vêm indicando um aumento na quantidade de raios, resolvi redigir este texto mais abrangente sobre o assunto. Quem sabe possa ele ser útil a alguém nos dias atuais.

As nuvens pesadas repletas de vapor d’água, que precedem as tempestades, são também carregadas de eletricidade estática, umas positivas e outras negativas; tal eletricidade resulta do atrito entre as partículas que as compõem, tal como ocorre nos dínamos elétricos. A razão pela qual umas assumem a polaridade positiva em relação à terra, e outras a negativa, é um assunto extremamente complexo e ainda polêmico em vários aspectos, razão pela qual não será tratado no âmbito deste artigo; no entanto, o fato de as nuvens possuírem eletricidade de polaridades diferentes entre si justifica-se pelo princípio geral do equilíbrio das forças da natureza.

O relâmpago, de todos conhecido, é um clarão instantâneo produzido por uma descarga elétrica atmosférica entre dois pontos de polaridades diferentes, podendo esta ocorrer entre nuvens e de nuvens para a terra. Tais descargas têm a forma de faíscas, ou raios. Por isto, é equivocada a idéia de um raio levar uma esfera metálica incandescente em sua ponta; ele é sempre uma corrente elétrica de altíssima intensidade, que queima por efeito Joule, o mesmo responsável pelo aquecimento dos ferros e chuveiros elétricos, bem como dos condutores em geral.

As tensões elétricas produzidas nas nuvens são gigantescas, sendo ordinariamente expressas em megavolts; só em laboratórios especiais podem ser alcançadas tensões de magnitude semelhantes. Por este motivo, é possível o disparo de centelhas a longas distâncias entre nuvens e em direção ao solo. Observem que, nas linhas de transmissão de energia elétrica, há uma distância a separar os condutores para que não haja centelhamento entre eles, a qual é tanto maior quanto mais elevada for a tensão de serviço.

O ar seco tem uma razoável capacidade de isolação, ou seja, de impedir a circulação de correntes elétricas, a qual reduz-se consideravelmente durante a chuva, quando há um aumento de sua umidade.

Tratemos agora, apenas, das descargas das nuvens para o solo, que são as de interesse neste momento.

A eletricidade estática positiva vai acumulando, aumentando a tensão elétrica das nuvens em relação à terra, até que se rompe o isolamento, dando passagens a descargas francas, ou seja, fortes e visíveis, em que as correntes normalmente assumem valores muito elevados. É um fenômeno semelhante ao de uma barragem, que pode romper-se quando a pressão da água assume valores insuportáveis para ela.

Uma corrente elétrica comporta-se como um fluido qualquer e, como tal, procura sempre o caminho que lhe ofereça menor resistência. Considerando que o espaço existente entre uma nuvem e a terra é relativamente homogênio no âmbito do fenômeno, as diferenças de resistência irão ocorrer próximo ao solo, influenciadas pelo relevo natural, incluindo as árvores, e pelos acidentes criados artificialmente, como as grandes torres, chaminés, edifícios e monumentos; quanto mais altos forem tais acidentes, tanto menor será a resistência oferecida à passagem da corrente elétrica e, consequentemente, maior será a possibilidade de serem atingidas por raios. Isto ocorre porque o percurso do raio no ar será menor e, igualmente, a resistência do meio que o conduz.

Em 1752, o versátil americano BENJAMIM FRANKLIN, um misto de físico, político, escritor, editor e músico, fez uma descoberta por acaso ao soltar pipa em um dia nublado; na ocasião, mesmo sendo ainda incipientes os estudos sobre a eletricidade, ele percebeu que uma corrente elétrica escoava-se pelo cordão do brinquedo. Com a curiosidade própria dos cientistas, aprofundou suas observações, o que acabou dando origem ao “pararraios de ponta”; este nome foi-lhe dado após a invenção do “pararraios tipo válvula”, utilizado nas redes elétricas.

O equipamento consiste de um conjunto contendo os seguintes componentes: uma haste para instalação no ponto mais alto do acidente a ser protegido; um cabo de grande bitola conectado a ela e à “haste de terra”, sendo esta enterrada. Os materiais utilizados deverão ser excelentes condutores de eletricidade, como o cobre; uma boa conexão deverá ser apresentada entre as peças, a fim de que seja reduzida ao máximo a resistência oferecida a uma eventual descarga para a terra, e que pode ser aferida com o emprego de instrumento denominado “megger”.

Tais equipamentos funcionam como uma larga avenida para a passagem dos raios, que parecem atraídos por eles; é como um grande guarda-chuva com varetas retas, formando estas um ângulo de 60º com a haste, de tal forma que torna impossível a precipitação de raios em qualquer ponto por ele abrangido que não a extremidade do pararraios.

Pelo o até aqui exposto, é destituído de fundamento o dito popular segundo o qual “um raio não cai 2 vezes no mesmo lugar”; ao contrário, ele cairá 2, 3 ou muito mais vezes nos locais que lhe sejam favoráveis. Se o ditado fosse verdadeiro, não faria sentido algum a instalação de pararraios.

Quando há um acúmulo de eletricidade na atmosfera muito próximo de um pararraios, descargas invisíveis irão ocorrer continuamente através dele,tendendo a esvaziar o potencial elétrico das nuvens; neste caso, o equipamento funcionará como uma válvula de pressão, em tudo semelhante à de uma panela.

Além de danos materiais, caracterizados principalmente por provocarem incêndios e queima de aparelhos elétricos, os raios podem provocar a morte e queimaduras em pessoas e animais. Raramente a descarga atinge diretamente uma pessoa, na maioria das vezes, os acidentes são causados por seus efeitos secundários, como os que serão descritos a seguir.

Quando uma descarga elétrica atinge uma árvore, haverá ainda uma tensão residual da ordem de 5.000 volts no pé do tronco; nestas condições, correntes elétricas escoar-se-ão radialmente pela superfície do solo, por ser este o caminho mais fácil, fazendo com que a referida tensão venha a esgotar-se na extremidade de uma circunferência de cerca de 20 metros de diâmetro. Isto significa que, de metro em metro na direção do centro para a extremidade, haverá uma tensão de aproximadamente 500 volts entre dois pontos consecutivos. Nestas condições, um animal como um boi ou um cavalo que esteja sob a árvore levará um choque da mesma intensidade se estiver com a cabeça ou cauda voltada para o seu tronco, sem prejuízo do que poderá levar nas posições intermediárias, já que a distância entre as patas anteriores e posteriores de tais animais é aproximadamente de 1 metro. A eletrocussão desta forma é muito comum, e não carboniza a vítima; a morte dar-se-á por parada cardíaca. Basta uma corrente de alguns miliamperes para matar uma pessoa ou um destes animais, desde que ela ofenda um órgão vital, como o coração ou o cérebro. O mesmo pode acontecer em relação às cercas metálicas.

As linhas de transmissão de energia elétrica são muito sujeitas a receber tais descargas, uma vez que, para encurtar distâncias, costuma romper por grandes elevações do terreno. A proteção daquelas mais extensas e com tensões mais elevadas é feita por um cabo estirado e fixado no ponto mais alto das torres; por ser aterrado em vários lugares do percurso, eles funcionam como um pararraios. Nas subestações e nas redes de distribuição são instalados os “pararraios tipo válvula” para proteger os disjuntores, transformadores e outros equipamentos.

Um raio introduz nos circuitos elétricos uma onda ou surto de tensão que se sobrepõe à de serviço; a função destes pararraios é deixar escoar para a terra apenas o excesso de tensão; contudo, algumas vezes uma parte deste surto chega a atingir as instalações dos consumidores, queimando circuitos e aparelhos elétricos, podendo ainda causar danos a pessoas.

A manutenção de pararraios limita-se à verificação periódica da continuidade do circuito e do controle da resistência de aterramento, a qual deve ser mantida abaixo do limite estabelecido em norma técnica. Quando tal limite á atingido ou ultrapassado, providências devem ser tomadas visando a sua redução. Na maioria das vezes, é suficiente derramar água salgada junto à haste de terra; se isto não der resultado, a haste deverá ser limpa, lixada ou, até, substituída ou ter sua ação reforçada com a instalação de outra.

Sem dúvida, as descargas elétricas atmosféricas envolvem riscos para as pessoas. A própria leitura das linhas precedentes permitem os cuidados que precisam ser tomadas durante as tempestades, dentre as quais destacam-se:

- desligar, na tomada ou na chave, todos os equipamentos elétricos;
- procurar sempre um abrigo seguro que não seja uma árvore frondosa;
- jamais tomar banho, mesmo frio, onde haja chuveiro elétrico;
- não se expor em áreas planas, como em um campo de futebol ou em uma embarcação no mar;
- não ficar exposto em locais muito altos;
- não se apoiar em postes e torres;
- não se aproximar de instalações elétricas industriais.

O fato de estar aumentando o número de intempéries atmosféricas não deve ser motivo de maiores preocupações no que se refere aos raios; eles continuarão caindo onde sempre caíram, pois o aquecimento global ainda não tem o condão de alterar as leis da física.

domingo, 10 de maio de 2009

"Carron" e mulher nova

Na década de 70, foi lançado pela GM um modelo novo de automóvel denominado “Opala”, que fez muito sucesso entre os de procedência nacional; era grande, bonito e muito confortável. Eu mesmo possuí um por muitos anos. Era um carro imponente o meu cupê bege ipanema.

Pouco tempo depois de nosso casamento, eu e minha mulher resolvemos viajar para Cambuci, onde pretendíamos descansar e visitar parentes e amigos, os quais não eram poucos por sermos naturais da mesma cidade e numerosas ambas as famílias.

Naquela ocasião, um padre novo estava à frente da paróquia local, vindo quase do outro lado do mundo, de um país exótico que tem o inglês como principal língua oficial. Tenho conhecimento de que teve algumas dificuldades iniciais por ser ele um sacerdote muito zeloso de sua missão pastoral e, por isto, exigente por demais com seus paroquianos.

Comunicava-se bem em português, com um leve sotaque e dificuldades comuns na pronúncia de alguns fonemas. Deixou incontáveis amigos quando foi embora, os quais se correspondem com ele até hoje; retorna à cidade sempre que pode e é muito bem recebido, em reconhecimento a seu valor.

Andava eu tranqüilo pelas ruas e praças de minha terra, sozinho ou acompanhado, a pé ou de carro, sem saber que estava sendo atentamente observado e vigiado por um estrangeiro que não me conhecia. Sua curiosidade era tamanha que o levou a fazer perguntas a pessoas de sua confiança, aquelas que costumavam frequentar a sacristia, procurando identificar-me.

A tarefa não foi nada fácil para seus interlocutores devido à insuficiência de suas informações; de fato, ele fixou-se apenas na imponência do carro e em minha idade avançada, em confronto com a da acompanhante. Perguntava ele inicialmente, sem sucesso:

- Quem é aquele que anda por aí em um “carron” amarelo?

Ele não sabia qual o modelo do automóvel e, além disto, bege não é amarelo. Mas, insistia:

- Quem é aquele que anda por aí em um “carron” com mulher nova?

Tanto fez que acabou descobrindo o grande e importante enigma: o homem era o Dr. RAPHAEL, engenheiro, de família daqui, irmão de Dª HÊLZA, Dª ZEZÉ e Dª DUCILA; a mulher era IZABEL, professora, de família tradicional do município, gente finíssima. Eles são casados e moram no Rio.

Esta breve história mostra que a curiosidade é comum ao ser humano em toda parte do planeta, mesmo sendo grande a distância entre os países e as diferenças culturais, independentemente das profissões. O que não fiquei sabendo é se o esclarecimento do caso foi motivo de satisfação ou decepção.

Já no final de nossas férias, voltava eu de Itaocara quando começou a chover ao aproximar-me da ponte da Boia, e lá estava o padre à beira da estrada como que aguardando uma condução; parei e convidei-o a embarcar. Um pouco assustado, ele entrou e, após alguns instantes, disse:

- “Carrona” boa essa!

Confirmado o seu destino e verificado que não era grande a pressa de chegar, resolvi dar um bordejo pela cidade; afinal, era uma oportunidade de tornar-me conhecido daquela autoridade eclesiástica. Ao término, expressou grande agradecimento, mas saiu meio ressabiado...

Mas, naquele momento, se eu tivesse a meu lado aquela mulher nova, a tendência seria ele gramar na chuva e penitenciar-se, talvez por muito tempo.

Caminho das Índias

Apoiado no grande avanço proporcionado pela Escola de Sagres na técnica de navegação, e já cansado de utilizar intermediários em seu comércio com o Oriente, decidiu Portugal lançar-se no então ousado projeto de descobrir um caminho marítimo para as Índias, o que foi conseguido por Vasco da Gama em 1498.

Pode-se imaginar a surpresa daqueles intrépidos marinheiros ao defrontarem-se com tanta exuberância e exotismo, após longa e perigosa jornada por mares desconhecidos e “nunca dantes navegados”, como dizia Camões.

Hoje em dia, basta um toque em um equipamento eletrônico para que se possa ver, ouvir e comunicar-se com qualquer parte do mundo instantaneamente. Negócios podem ser feitos, monumentos e museus visitados, acervo de bibliotecas consultados, espetáculos assistidos, inclusive competições esportivas e importantes cerimônias; isto para falar-se apenas de coisas agradáveis.

Encontra-se em cartaz pela Rede Globo a novela “Caminho das Índias”, que tem suscitado muitos comentários, especialmente no que diz respeito às sequências passadas naquele país; e, nos cinemas, o filme ganhador de vários “Oscars” intitulado “Quem Quer Ser um Milionário?”, que também retrata coisas de lá.

Quem assistiu ao capítulo de abertura da referida novela ficou certamente extasiado com sua beleza plástica, em que imponentes monumentos serviam de pano de fundo ao forte colorido das roupas, à harmonia da dança com seus elefantes amestrados, tudo ao som de uma música tipicamente árabe, sobretudo pela percussão pesada e rica. Entra, depois, na intimidade de duas famílias de comerciantes abastados, do ramo de tecidos e dos perfumes, ambos da casta dos vaishas, e suas interações com um despresível dalit e uma firanghi de costumes inaceitáveis, por ser estrangeira.

Quanto à película cinematográfica, uma linda história de amor é conduzida através de um programa televisivo que oferece grandes prêmios aos vencedores, e que, ao mesmo tempo, mostra a miséria e a violência reinantes no submundo do crime.

A novela e o filme têm em comum a revelação de uma inaceitável desordem urbana, tratando-se de um país considerado emergente, tal como o Brasil, a Rússia e a China, já altamente desenvolvido em vários setores. De fato, observa-se uma tremenda confusão no trânsito em importantes centros urbanos: não há mão nem contramão; inexistem sinais de controle; pessoas circulam juntamente com vacas, camelos, elefantes, caminhões, automóveis e os típicos tuc-tucs.

A sociedade e os costumes indianos são provavelmente os mais complexos do mundo, devido à multiplicidade de etnias, línguas, crenças, tradições e superstições; são 16 as línguas oficiais, havendo ainda dezenas de outras e incontáveis dialetos. Tal diversidade é decorrente das invasões sofridas pelo país ao longo de sua história, onde um dia prosperou a mais antiga das civilizações conhecidas, a dos Magas, que data de 2500 a.C.. É um caldeirão cultural.

Entre 1700 e 1200 a.C. os árias invadiram a região e nela introduziram um odioso sistema social fundado em castas, a saber: brâmanes, dos sacerdotes, professores e intelectuais; xátrias, dos militares, guerreiros e administradores; vaishas, dos comerciantes, fazendeiros e geradores de riquezas em geral ; sudras dos trabalhadores braçais e serviçais; parias, dos desocupados e sem profissão definida; e dalits ou intocáveis, reservada aos que, por motivos graves, tenham sido expulsos de suas castas, assim permanecendo até a 3ª geração em limpeza de ruas e de fossas, e serviços em crematórios.

No fim do século I a.C., houve a invasão dos indo-citas vindos da Pérsia oriental; na sequência, ocorreram invasões alternadas de persas e gregos. Os hunos, nômades bárbaros, lá estiveram no século VI, ocasião em que duas novas religiões surgiram ao lado do hinduísmo: o budismo e o jainismo. Os turcos lá apareceram no século VIII.

A invasão de maometanos no século X foi a que exerceu maior influência: cerca de ¼ da população foi convertida à força ao islamismo, religião que resguarda, mas discrimina violentamente as mulheres; podendo os homens possuir várias esposas, os invasores passaram a co-optar as jovens viúvas hindus. Este fato deu origem a um costume cruel entre os nativos, que era o de imolarem-se as viúvas nas piras funerárias de seus maridos. Exerceram eles grande influência na música.

No fim do século XV, lá aportaram os portugueses com o objetivo de estabelecer uma linha regular de comércio de especiarias, utilizando o caminho marítimo. Com eles seguiam missionários jesuítas e dominicanos, os quais se incumbiam de divulgar o cristianismo, como era de praxe.

No século XVII, os mongóis dominaram a Índia, implantando no norte daquele país importantes monumentos de arquitetura, compreendendo palácios, mesquitas com seus miraretes, e mausuléus, onde se destaca o Tajd Mahall, localizado na cidade de Agra, que aparece na abertura da novela.

Com a decadência dos mongóis, a península começou a ser disputada por franceses e ingleses no século XVIII; estes prevaleceram, e sua dominação durou cerca de 200 anos.

Em que pese seu nível de desenvolvimento muito mais elevado, os ingleses não se preocuparam muito em interferir nos costumes locais, cuja diversidade deveria favorecer sua dominação, exceto quanto à imposição do idioma inglês e a implantação de ferrovias, que asseguravam a integração do território.

Por fim, surgiu a extraordinária figura de GANDHI, líder espiritual e político que iniciou a luta pela independência da Índia em 1920, usando a estratégia da não-violência e da desobediência civil, cujos mentores teóricos foram RUSKIN, THOREAU e TOLSTOI, processo só concluído em 1947, mas sem o sacrifício de vidas humanas.

O que nem todos sabem é que GANDHI esforçou-se igualmente em prol da justiça social e contra a desordem urbana, em especial no que tange ao saneamento, logrando a aprovação de leis como a que proibiu o casamento de crianças e a que melhorou a quota das castas inferiores na representação política. A situação dos parias e dos dalits o incomodava ao extremo. Mas, só com o advento da constituição do país, após sua independência, foi abolido o regime de castas. As leis indianas atuais proibem qualquer tipo de discriminação motivada por casta, raça ou credo. São do famoso líder os textos abaixo:

“Não há nada mais tenaz do que um costume que se herda com um preconceito engastado no inconsciente.”

“Um dos grandes defeitos da Índia é a negligência em matéria de higiene pública. Os hindus observam um asseio meticuloso na cozinha e em suas pessoas, mas são negligentes quanto às ruas e aos quintais.”

De fato, o tão decantado Rio Ganges não passa de uma latrina há muito tempo, um cemitério ambulante repleto de cadáveres e animais mortos.

O povo, que não ouviu os apelos de GANDHI em oposição às práticas preconceituosas e costumes frívolos, não foi capaz de resistir ao processo de globalização em todos os campos, não sendo possível admitir-se que sua juventude tenha estado desconectada de tudo o que se passa ao redor do mundo, e ainda se submeta a modos de vida ultrapassados.

Sem dúvida, a autora GLÓRIA PERES resgata costumes antigos para tornar sua obra mais atraente, com seus rituais, seus “sáris”, “bindis” e jóias caras usadas cotidianamente, e não apenas em ocasiões especiais, e mostra cenas chocantes de preconceito explícito em conflito com a legislação indiana.

Quanto ao pagamento de dote e escolha dos noivos para seus filhos, trata-se de coisa já adotada aqui até o século XIX. Mas, ainda hoje, existem muitas senhoras que gostariam de poder escolher seus futuros genros e noras, convencidas de que o fariam melhor do que fizeram para si mesmas.

Xixi na rua

A cobertura jornalística levada a efeito nas ruas do Rio, quando do último carnaval, deu um destaque incomum, inclusive com ilustrações fotográficas, ao fato de muitos foliões terem urinado em locais impróprios. Tais ações foram consideradas absurdas e, até, obscenas, chegando a dar margem a uma detenção.

Os carnavais de rua no Rio ganharam novo impulso nos últimos tempos, devido principalmente ao fato de terem os desfiles das escolas-de-samba se transformado em festas para turistas e celebridades; custam caro e as pessoas só têm uma participação ativa quando inseridas no espetáculo. São numerosos os blocos carnavalescos, os quais se caracterizam por sua informalidade e animação, movimentando dezenas de milhares de pessoas de várias classes sociais, na maioria jovens, destacando-se o “Cordão da Bola Preta”, a “Banda de Ipanema”, o “Cacique de Ramos”, o “Bafo da Onça”, o “Sovaco de Cristo”, o “Boi Tatá” e o “Simpatia é Quase Amor”.

Cada apresentação de um grande bloco dura cerca de 4 horas, às quais deve ser adicionado o tempo de ida e de volta do participante a sua residência para ter-se uma idéia de sua premência de satisfazer tal necessidade fisiológica, sobretudo quando se dança e pula sob forte calor e com elevado consumo de cerveja e outros líquidos.

Por outro lado, é conhecida a carência de equipamento urbano nas grandes cidades para evitar ou minorar esse tipo de problema, o qual se agrava nas áreas distantes dos parques e das praias nos dias em que o comércio e as repartições públicas encontram-se fechadas. Durante o carnaval, nem os bares abrem suas portas nos locais de grande confusão, sendo os alimentos e as bebidas vendidas por ambulantes. Nos dias úteis, embora seja considerável o número de transeuntes, muitos deles têm uma base qualquer nas proximidades ou afastam-se de casa por um período menor.

As autoridades não têm como proibir tal manifestação do povo, que praticamente não causa ônus financeiros; na verdade, basta que sejam delimitadas as áreas possíveis, reforçada a segurança e modificado o tráfego. A instalação de banheiros químicos, que é um recurso modernamente utilizado em algumas situações, é insuficiente para atender demanda com tal ordem de grandeza.

Um cálculo relativamente simples permite-nos estimar o número de tais banheiros que seriam necessários para satisfazer plenamente as necessidades, quando se lida com multidões. Isto será demonstrado nos tópicos subsequentes.

Quanto à capacidade de cada equipamento, supondo que haja um fluxo contínuo de usuários e que o tempo médio unitário de uso seja de 3 minutos, seriam atendidas 20 pessoas diferentes por hora, que passaria para 80 se consideradas as 4 horas de um desfile, e cada uma fazendo uso dele apenas uma vez.

O “Cordão da Bola Preta” arrasta uma quantidade exorbitante de pessoas pelas ruas centrais do Rio, cuja determinação precisa é impossível; no entanto, os jornais têm arriscado alguns números que me parecem exagerados, como 800 mil informado quando do último carnaval. No ano anterior, falou-se de 300 e 400 mil.

Achei prudente apurar melhor esta questão com base em uma foto aérea que mostra o bloco tomando completamente a Av. Rio Branco, no trecho que vai da Cinelândia à Av. Presidente Vargas. Fazendo uma medição da largura e do comprimento utilizados da citada via, os resultados encontrados foram 37 e 1.380 m respectivamente. Tem-se, portanto, que a área total abrangida foi de 51.060 m2 e, se for adotado o pressuposto de que a densidade média de ocupação é de 2 pessoas/m2, chegar-se-á a 102 mil participantes como número final, que será aproximado aqui para 100 mil por motivo de ordem prática.

Pode-se agora, com uma simples divisão, calcular o número de banheiros químicos que seriam necessários: 100 mil / 80 = 1.250. Se justapostos lado a lado, com 1,20 m de largura externa cada um, terse-ia 1,5 km de extensão total. Seria isto absolutamente inviável para a administração pública municipal, pois o custo/benefício seria altíssimo e não haveria espaço disponível para sua instalação, a qual teria que ser ainda muito bem administrada durante sua operacionalização. Seria igualmente inviável a implantação de sanitários permanentes.

Na verdade, o número equivalente de pessoas poderá ser superior ao acima referido porque se considerou uma distribuição uniforme de usuários ao longo do tempo, e que cada um fizesse uso do equipamento apenas uma vez, hipóteses pouco prováveis; quanto à primeira delas, sabe-se que a demanda tenderá a aumentar na parte final do período e, na segunda, que a maioria das pessoas sentiria tal necessidade mais vezes. Seja com 100 mil ou mais, a situação continuaria muito difícil também com 75, 50 ou 25 mil foliões.

A solução para este problema já existe, e é a mesma adotada para todo tipo de sujeira: terminada a festa, entra em ação a operação limpeza. Aí, se cada incomodado colaborar cuidando da frente de seu prédio, o trabalho será mais fácil e rápido.

A propósito da arguição de obscenidade, muito mais grave é o fato de estações do metrô não possuírem instalações sanitárias para seus clientes, e ninguém se insurgir contra isto.

Aliás, é sempre difícil prover infraestrutura de serviços adequada quando estão envolvidas demandas muito grandes de curta duração. Veja-se, por exemplo, o que acontece nas conhecidas corridas para as praias no verão: cada um sabe com antecedência que ficará engarrafado, mas não desiste da viagem. No íntimo, todos têm consciência que não seria razoável exigir-se a duplicação ou triplicação de uma via de acesso só para servi-los por alguns momentos.

Nos dois casos, tudo pode ser enfrentado com um pouco de paciência e tolerância.

O Maratonista

Já faz algum tempo, assisti a uma entrevista televisiva, concedida por um dos nossos melhores maratonistas, em que ele fez revelações muito interessantes sobre sua vida e seu treinamento para a mais tradicional e importante competição olímpica, cuja origem remonta à Grécia antiga.

Reside ele no interior, em propriedade rural de sua família, e não pode seguir os passos de seus competidores no que diz respeito ao treinamento; sem recursos materiais próprios e patrocínio suficientes, torna-se inviável sua frequência aos centros especializados existentes em grandes altitudes, no País ou no exterior, visando a melhorar-lhe a capacidade pulmonar e oxigenação do sangue. Ao contrário, a pista necessária foi criada lá mesmo, por terras de seu sítio e vizinhas, cobrindo o percurso aproximado de 42 km, compatível com a distância oficial das maratonas.

Treinava com regularidade e preferencialmente à tarde, de maneira que pudesse concluir a corrida antes de anoitecer; mas o fazia sempre acompanhado de seu cão de guarda, que era grande, forte e, acima de tudo, companheiro inseparável.

Mas nosso maratonista adquirira uma égua, que acabou introduzindo alterações em sua rotina diária; ele deveria agora, antes de iniciar seu exercício, recolher seu animal no pasto e amarrá-lo em uma das estacas da cerca em frente a sua casa.

Com o animal amarrado, partiu para seu treino diário uniformizado e espontaneamente seguido por seu cachorro; desta vez, a égua apenas observou curiosa toda aquela movimentação.

No dia seguinte, repetiu o procedimento antes de sair, sem se dar conta da insatisfação de seu animal observada por sua esposa: ele relinchava, sapateava e sacudia a cabeça freneticamente, tentando soltar-se. A mulher não teve dúvida de que a égua queria participar também daquela brincadeira, e foi justamente isto que disse a seu marido; este, compreensivo, disse-lhe que iria verificar e resolver o problema.

A mesma praxe cumpriu o atleta no 3º dia; todavia, antes de sua partida, resolveu soltar o animal. Sentindo-se liberada, a égua acompanhou-os por todo o percurso, fazendo o mesmo nos treinamentos subsequentes.

Por fim, quis saber o entrevistador como era o comportamento de seus dois companheiros durante o trajeto, principalmente se eles o concluíam. A resposta preliminar foi a de que ambos limitavam-se a segui-lo, razão pela qual não o atrapalhavam nunca, e que era tudo muito divertido. Referiu-se depois às duas hipóteses possíveis de treinamento, que poderia ser leve, para simples manutenção, ou puxado, se já específico para determinada competição: no primeiro caso, disse ele, ambos conseguiam chegar ao final; no segundo, o cachorro ficava pelo meio do caminho.

Fica aqui uma sugestão para quem pretenda fazer longas caminhadas ou corridas, e possa executá-las fora dos perímetros urbanos. Por que não levar consigo, à falta de outra pessoa, um cachorro, um bode ou um cavalo !? Só não vale usar este como montaria.

Carnaval: Paulo da Portela em Cambuci

Vi PAULO DA PORTELA pela primeira e última vez em 1938, fazendo o carnaval de Cambuci. Eu, então com 8 anos, nada sabia sobre ele. Acontecia o mesmo com o resto da população, pois os meios de comunicação eram muito precários naquele tempo; no entanto, ele já se destacava no meio dos bambas do Rio de Janeiro, e fora eleito “Cidadão Samba” no ano anterior.

Dentre suas composições, as mais populares foram “Cocorocó”, “Guanabara (Cidade-mulher)”, “Quitandeiro” e “Pam-pam-pam-pam”; nesta última, lançou o ditado “Bata com a cabeça!”.

Sua preferência, como cantor, era por temas alegres e engraçados que lhe permitissem utilizar todos os seus recursos interpretativos; portava-se algumas vezes comicamente com sua expressão corporal, a facial em particular.

Para um sambista, sempre me pareceu muito delicada a letra de seu samba “Borboleta Buliçosa” (“Linda borboleta / Não sejas buliçosa / Deixa minha rosa / Sossegada em seu galho / É o meu prazer / Ao alvorecer / Vê-la tão bonita / E coberta de orvalho / E quando vem o sol / Enche ela de ouro / No jardim do pobre / É um tesouro”).

Nascido PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA em 18 junho de 1901, no morro da Saúde, transferiu-se em 1920 para a Estrada da Portela, no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz. Apesar de sua origem muito humilde, tornou-se uma figura emblemática na historia do samba, devido a sua atuação nas décadas de 30 e 40 do século passado. É, na verdade, um mito cultuado até hoje, tendo seu nome lembrado em composições de CARTOLA, MONARCO e NELSON CAVAQUINHO, entre outros, sendo deste, um ilustre mangueirense, o texto a seguir: “Mangueira é celeiro / De bambas como eu / Portela também teve / O Paulo que morreu / Mas o sambista mora eternamente / No coração da Gente”.

Lustrador por profissão, com 19 anos de idade começou a unir-se a operários e funcionários públicos em pequenos grupos carnavalescos, participando também de rodas-de-samba. Há divergências sobre se o “GRES PORTELA” originou-se do bloco “ Vai Como Pode”, que surgiu em 1923, ou do “Conjunto Oswaldo Cruz” criado em 1926; mas, como PAULO participou da fundação dos dois, ele sempre foi reconhecido como precursor também da PORTELA, que adotou este nome oficialmente em 1935, quando de sua instituição, sendo PAULO seu primeiro presidente e sua casa a sede da agremiação das cores azul e branca.

Cabe salientar que o nome de guerra de PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA deveu-se ao fato de residir ele na Estrada da Portela, onde, em 1920, começou sua trajetória no samba; da mesma forma, a escola-de-samba fundada em 1935 teve seu nome ligado àquela via, e não diretamente a PAULO DA PORTELA.

Pode-se supor que o prestígio do sambista deveu-se mais a sua personalidade e elegância, seu carisma e suas iniciativas do que a seu talento musical. Tendo ele se iniciado em uma época em que o samba não agradava à elite e era perseguido pelas autoridades, por ser preconceituosamente considerado coisa de vagabundo, trabalhou intensamente para mudar este quadro. Para isto, procurava apresentar-se sempre bem vestido, exigindo o mesmo de seus companheiros quando se reuniam em blocos carnavalescos, que primavam por sua organização mesmo quando o luxo ainda não imperava.

PAULO liderava o “Grupo Carioca” formado por artistas como HEITOR DOS PRAZERES, CARTOLA e SECUNDINO SILVA, atuando profissionalmente no eixo Rio – São Paulo e já com uma excursão realizada ao Uruguai. Em virtude destes seus compromissos, teve um sério desentendimento com a direção da PORTELA em 1937, quando foi proibido de desfilar no carnaval por ter se apresentado vestido inadequadamente, pois acabara de retornar de uma viagem, do que resultou seu afastamento da agremiação definitivamente. Por conta deste incidente, PAULO compôs o samba “O Meu Nome Já Caiu no Esquecimento” (“Chora Portela, minha Portela querida / Eu te fundei, serás minha todo a vida”).

Em 1938, o desfile foi prejudicado por fortes chuvas, não tendo havido julgamento porque a Comissão Julgadora não compareceu. A PORTELA não contou com o PAULO em consequência do desentendimento ocorrido no ano anterior.

PAULO foi escolhido para representar o samba nos Estados Unidos em 1939, cooptado que fora pela “Política de Boa Vizinhança” lançada por aquele país. Convidada por ele, a PORTELA também excursionou e apresentou-se lá. Estava assim quebrado o gelo entre PAULO e a sua PORTELA; no entanto o sambista não voltou mais a desfilar por ela, passando a fazer parte da LYRA DO AMOR até o fim da vida.

Até então, PAULO e a PORTELA confundiam-se; cada um era inteiramente dependente do outro. Ele era a atração maior nos desfiles; quando identificado, os aplausos irrompiam com intensidade, tal como ocorre hoje com as rainhas de bateria e os destaques desnudos. PORTELA era a grande vitrine e PAULO seu principal produto.

A década de 30 foi pródiga para a música popular brasileira com a “Época de Ouro do Rádio”. Já não havia aquela rejeição inicial ao gênero, que foi quebrada por artistas como ARY BARROSO, CARMEM MIRANDA, ATAULFO ALVES e DORIVAL CAYMMI, entre outros.

Com novas portas abertas, PAULO passou a movimentar-se com mais desembaraço: recebia ele, para entrevistas, professores e altas autoridades, inclusive estrangeiras; onde quer que o samba estivesse em discussão, lá estava ele; e comparecia às rádios com frequência para defender e valorizar a imagem do sambista.

Alguns dias antes do carnaval de 1941, PAULO manifestou o desejo de comemorá-lo fora, em uma roda de amigos em Oswaldo Cruz da qual participava o cambuciense PAULO DA CAROLA; ante o interesse demonstrado por este, ficou esclarecido que estava disposto a ir para qualquer cidade do interior do Estado que lhe proporcionasse, a ele e seu conjunto, passagens, hospedagem e alimentação. Passada esta informação para pessoas da família PERAZZO, o negócio foi fechado,não tanto por tratar-se de PAULO DA PORTELA, mas por serem excelentes as condições propostas.

PAULO desembarcou em Cambuci no sábado após um dia inteiro de viagem de trem, acompanhado de outros 6 músicos, sendo conduzido em seguida para o hotel, onde jantaram e descansaram até o dia seguinte, já que a festa só começaria domingo, como era usual.

O grupo realizava diariamente uma roda-de-samba à tardinha, junto ao chafariz do jardim de cima, e fazia o baile à noite no armazém de café que fica em frente ao fórum atual. SECUNDINO, cuiqueiro autor do sucesso “Helena”, era o esnobe da turma, pois chegava atrasado às rodas-de-samba só para dizer que estava escrevendo. A execução de um samba clássico obedecia ordinariamente à sequência: o cavaquinho entrava dando o tom e fazendo o centro; o surdo fazia a marcação; a cuíca, o contratempo; o violão, o contracanto; o pandeiro, a integração; o trombone, o contracanto e solo; e, à frente de todos para o solo vocal, PAULO DA PORTELA com seus 1,80 m de negritude.

Assim, com muita sorte e oportunismo, Cambuci conquistou o privilégio de ser a única cidade do mundo que teve um carnaval animado, com exclusividade, por PAULO DA PORTELA.

Sua vida intensa e curta, das mais produtivas para a música popular brasileira, foi bruscamente interrompido em 31 de janeiro de 1949, aos 48 anos, vitimado que foi por um enfarte em Madureira.

Os grandes carnavais de Cambuci

Ao aproximar-se o carnaval de 1974, um grupo de pessoas de Cambuci resolveu organizar um bloco, dando-lhe o nome de PICARDIA, logo despertando o desejo de outros de competir com ele, surgindo assim o TAMOS AÍ. Dizia-se que o primeiro nascera vinculado a uma elite local, enquanto o segundo congregava classes mais populares. Esta interpretação dos fatos e o início imediato de uma grande rivalidade entre eles estão retratados nos primeiros sambas-enredo.

Seguiu-se um período em que monumentais desfiles carnavalescos foram realizados em Cambuci, desproporcionais ao tamanho e aos recursos da cidade. Eles permaneceram até 1993 com a participação das duas agremiações, e até 1994 com o TAMOS AÍ apenas, quando apresentou o enredo “Formas e Cores”.

Havia uma ânsia constante de ambas as partes de superarem-se a cada ano, fazendo com que tivéssemos, na Praça da Bandeira e suas adjacências, verdadeira réplicas do que acontecia no Rio neste particular, guardadas as devidas proporções; na verdade, as diferenças existentes atingiam mais os aspectos quantitativos. Diversos outros animados blocos, mas sem o mesmo requinte, animavam a festa naquela época: K-BROXINHAS DO VALTAIR, LITRÃO, QUEM QUER VINHO VEM, VIRGENS e, ainda, o folclórico BOI PINTADINHO. As principais só desfilavam domingo e terça-feira.

Entre 200 e 300 participantes esmeravam-se para exibir suas fantasias (algumas, ricos destaques), 3 carros alegóricos, a tradicional ala das baianas e outras compatíveis com o enredo, mestres-sala e porta-bandeiras, grande bateria, cantores, passistas etc.; era uma excelente oportunidade de conhecer-se o trabalho dos artistas da terra, bem como a graça e a beleza de mulheres de todas as idades. Cumpriam-se plenamente os rituais próprios também ao longo do ano.

Após os desfiles, ambos poderiam considerar-se vencedores porque não havia julgamento oficial, medida esta de muito bom senso naquelas circunstâncias.

Havia um intenso afluxo de público, compreendendo a população fixa da cidade, cambucienses residentes fora, moradores em municípios vizinhos e forasteiros sem ligação alguma com o lugar, que vinham de longe atraídos pelo evento. Apesar disto, os aplausos sempre me pareceram discretos e pontuais.

A cada ano, as agremiações tinham que trabalhar com afinco para fazer seu carnaval, tamanhas eram as dificuldades encontradas pelo caminho; mesmo sendo preponderantemente amadora a mão-de-obra empregada, as despesas assumiam valores consideráveis, em confronto com a subvenção proporcionada pela Prefeitura. Para suprir suas necessidades, promoções diversas tinham que ser programadas durante o ano, e listas de colaboradores especiais serem organizadas. Em geral, na sequência, sobravam dívidas a serem honradas pelos responsáveis, os quais acabaram cansando-se e optando pelo encerramento de tais atividades, ao invés de baixarem o nível delas. O TAMOS AÍ, que ainda existe de fato e de direito como associação, com o nome “Grêmio Recreativo Escola de Samba Tamos Aí”, possui um valioso patrimônio no centro de Cambuci, constituído de quadra para ensaios e festas, e galpão para serviços; lamentavelmente, toda esta infraestrutura não vem cumprindo a finalidade para a qual foi criada.

Vê-se, por conseguinte, que a atuação do PICARDIA e TAMOS AÍ nos carnavais tinham consequências ao longo do ano devido à promoção de eventos, que se tornaram conhecidos e famosos.

Sabedores de meu envolvimento com o samba através do TAMOS AÍ, algumas pessoas já me questionaram sobre a possibilidade de voltarmos a proporcionar ao público aqueles grandes carnavais de outrora. Eu, particularmente, sou muito pessimista quanto a isto, pelos seguintes motivos: permanecem a carência de recursos e de outros estímulos; aqueles devotados líderes, após decorridos 15 anos, já não existem ou, de um modo geral, faltam-lhes condições físicas ou psicológicas para enfrentar novos desafios; e os jovens de hoje, em matéria de diversão não se interessam por nada que implique muita organização e disciplina, preferindo brincadeiras informais como blocos de sujo.

Eu imaginava que, passado o carnaval e por um bom tempo, toda a cidade ficasse comentando os desfiles, pois assunto não faltava para isto; mas eu não podia permanecer nela para ver, em virtude de meus compromissos profissionais. Certa feita, resolvi ficar para a feijoada do TAMOS AÍ, e prolongar minha estada pelo resto da semana; naquela ocasião, observei nas ruas que ninguém falava nada sobre o carnaval espontaneamente. Era como se nada tivesse acontecido ali de especial, como se os carnavalescos, artistas e figurantes não houvessem feito nada de mais do que suas obrigações.

Mas, mesmo assim, ficaria muito feliz se tudo aquilo voltasse a acontecer, e, de minha parte, espero estar pronto para fazer aquilo que então fazia: sambas-enredo. Fui honrado com a escolha de duas músicas minhas pelo TAMOS AÍ: a primeira, lembrada até hoje por muitas pessoas, foi apresentado em 1976 com o título “Exaltação a Cambuci”, vencedor em acirrada disputa; a segunda, do carnaval de 1994, levava o título “Formas e Cores”, em que compus também o enredo. E, por falta de oportunidade, permanece inédito o meu “Travessia de Uma Raça”, com enredo e tudo planejado para um desfile. Que pena!

Blocos vestidos com camisetas-regata podem ser divertidos, mas jamais foram nem serão representativos dos velhos PICARDIA E TAMOS AÍ, que atuaram durante 20 longos anos.

Acordos e reformas ortográficas

É assunto recorrente na mídia nestes dias o “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de l990, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, posteriormente, por Timor Leste, o qual foi aprovado no Brasil pelo Decreto Legislativo n° 54, de 18 de abril de 1995. Embora sem eliminar todas as diferenças ortográficas existentes nos citados países, seu objetivo é caminhar no sentido da unificação ortográfica dos mesmos, considerado importante pelos especialistas para a consolidação de nosso idioma como o 6° mais falado e escrito no mundo.

Esta não é verdadeiramente minha praia, mas ouso comentar também o tema por considerar que ditos especialistas, ao preocuparem-se com certos pormenores da linguagem escrita, perderam completamente de vista aquela que é sua finalidade precípua: traduzir a linguagem falada através de símbolos, com a máxima fidelidade possível. Pode-se concluir então que a linguagem falada está para a linguagem escrita, assim como a música está para a respectiva partitura.

No Brasil, em que pese sua imensa área física, o português impôs-se de norte a sul e de leste a oeste como língua oficial, havendo pouquíssimas diferenças pontuais de pronúncia. O país deve, pois, zelar pela manutenção deste considerável acervo promovendo, quando necessário, reformas ortográficas válidas em todo o seu território, já que estão todos sujeitos às mesmas leis. Neste aspecto, nossa situação é bem mais cômoda do que a de inúmeros países que possuem 2, 3 ou mais idiomas oficiais, como o Canadá, a Suíça e a África do Sul, entre outros.

Muitas reformas ortográficas já foram levadas a efeito desde a carta de CAMINHA, escrita em linguagem arcaica e, muitas vezes, incompreensível para nós, seguindo-se o período colonial, o do Reino Unido a Portugal, o do Império e, finalmente, o da República. Nestas fases precedentes, inclusive a dos primeiros anos da República, eram muito fortes nossos vínculos com Portugal, sendo natural que o Brasil seguisse seus passos, já que aquele país era também mais importante internacionalmente, sobretudo do ponto de vista cultural, o que já não é mais o caso.

Hoje o Brasil supera não só Portugal, mas todos os demais países signatários do Acordo, individualmente ou em conjunto, seja no aspecto demográfico como no econômico e cultural, não fazendo sentido que deva atrelar-se ao Timor Leste, que fica no outro lado do mundo e não tem maior expressão no cenário mundial. Seria, por exemplo, como se a Inglaterra firmasse semelhante compromisso com Antígua, Barbados, Botsuana, Fiji e Gâmbia, e a França fizesse o mesmo com Benin, Burkina Fasso, Burundi, Chade e Gabão. Se a unificação ortográfica pretendida é tão importante para os países de língua portuguesa, agora os outros é que deveriam seguir o Brasil.

É interessante observar que a língua oficial, no Brasil, já apresenta algumas distorções entre a falada e a escrita. Veja-se, por exemplo, que a pronúncia da palavra “muito”, com suas flexões e derivações, já não corresponde a sua escrita por sugerir a existência de um “n” antes do “t”; e, ainda, que todas as terminações em “e” e “o” das palavras polissílabas são pronunciadas como “i” e “u”, respectivamente, exceto nos estados do sul. No entanto, nunca se cogitou de reformar nossa ortografia por causa disto; na verdade, já absorvida a discrepância pela população, quase ninguém se dá conta dela.

Outro fato de grande importância, quando se está cogitando de unidade linguística, é a existência de inúmeras palavras e expressões que, embora idênticas no Brasil e em Portugal, possuem significados diferentes nos dois países, o que deve ocorrer também nos demais países de língua portuguesa. Não há lei ou decreto capaz de resolver tal questão.

Em minha avaliação, o Acordo é desnecessário e oneroso, e contraproducente pelo temor que acarreta em muitas pessoas que já têm dificuldades com nossa linguagem escrita, embora suas regras possam ser aprendidas em alguns minutos. É ainda frustrante para o comércio e as bibliotecas públicas e privadas, cujos estoques de publicações ficarão desatualizados quanto à ortografia.

Riscos para a saúde

Todos sabem que são muitos os riscos para a saúde, grande parte deles relacionados com os alimentos, com a poluição ambiental e, até, com o mal uso de medicamentos. Quanto aos primeiros, muitos conceitos têm sido modificados ao longo do tempo devido ao desenvolvimento científico, sobretudo na área médica; por isto, muitos dos que eram ontem considerados venenos ou remédios passaram a ser hoje remédios ou venenos, respectivamente. Além do mais, há coisas inventadas no seio do povo que atribuem poderes milagrosos a determinados produtos; é difícil saber se são mesmos eficazes, mas é certo que seus valores de mercado aumentam instantaneamente.

Tive a ventura de passar minha infância em uma maravilhosa chácara, hoje incorporada à área urbana da cidade de Cambuci, a “Chácara do Sossego”, onde era grande a fartura; nela havia uma bem cuidada horta e inúmeras fruteiras. Tínhamos laranja, banana, mamão, manga, abacaxi, goiaba, jaca, melão, melancia, abio roxo, amora, figo, pêssego, maracujá, pinha e jenipapo; também um pé de abricó de um pomar vizinho, próximo à divisa, contribuía com um galho generosamente pendente para o nosso lado. Eventuais intrusos ficavam por conta de nosso cão de guarda, o TOMIX.

Em nossa casa, não havia restrições formais ao consumo de frutas, mas era necessária muita cautela para que as mesmas não fossem involuntariamente misturadas entre si, e também com leite, sem a observância de um intervalo de 3 horas, no mínimo.

Vivia-se, então, a época do “faz mal” e da “indigestão”. Os que viveram na década de 30 do século passado, ou anterior, conheceram tais incompatibilidades, que atingiam principalmente aquelas frutas mais desejadas e consumidas; assim, fazia mal associar: banana com manga ou abacaxi; manga com jaca ou melancia; goiaba com melão ou abacaxi etc., ou qualquer delas com leite. O risco de uma grave indigestão seria muito grande. Consta que tal invencionice surgiu no tempo da escravidão, como estratégia dos senhores para inibir o consumo pelos escravos de produtos valiosos e de difícil controle.

Era muito difícil, senão impossível para as crianças mais novas, proceder conforme recomendado sem o auxílio de pessoas mais velhas; em conseqüência, elas “enchiam o saco” das mães a todo instante, perguntando se já podiam comer determinada fruta. Embora possa ser inacreditável para os mais jovens, estimo que tenha sido nos primeiros anos da década de 40 que entrou em uso por aqui a “salada de frutas” e a “vitamina de copo”, desmoralizando completamente aquela prática absurda.

Algumas outras regras muito difundidas nos últimos tempos, mas de fundamentação científica discutível, dizem respeito ao consumo diário de água, à exposição aos raios solares e ao controle de certas medidas do corpo humano.

A primeira delas estabelece que o consumo diário mínimo por pessoa deve ser de 2 litros, não entrando nesta conta a ingestão de qualquer outro líquido. A norma não leva em conta a massa corporal, o sexo, a estação do ano ou atividade desenvolvida pela pessoa; neste aspecto, não importa tratar-se de um trabalhador braçal exposto ao sol, um atleta ou qualquer que leve uma vida sedentária, fatos estes que deixam dúvidas sobre sua racionalidade, na forma em que tem sido enunciada.

Como tenho raízes lá pelos desertos arábicos, costumo dizer que sou um pouco “camelo” por consumir pouquíssima água, e sempre relutei em modificar meus hábitos por entender que a necessidade de água, para um corpo humano saudável, é traduzido pela sensação de sede; contudo, de tanto ouvir em casa tal recomendação, resolvi um dia municiar-me no escritório com uma grande garrafa térmica repleta de água, passando a bebê-la sofregamente, de maneira a atingir a cota exigida. Consegui, mas não foi nada fácil; não me senti bem ao final do dia, estava como se intoxicado pela água. Nunca mais!

Algum tempo depois, li em um jornal que o excesso de água pode ter graves conseqüências para a saúde. Não sei se isto é verdade, e sugiro aos caros leitores que evitem tomar qualquer decisão a respeito sem consultar seus médicos de confiança.

O tal índice de massa corporal expresso pela fórmula “peso/quadrado da altura” parece-me razoável, até porque encontro-me perfeitamente enquadrado na faixa dos pesos permitidos para minha altura.

Raios solares ricos em radiação ultravioletas são efetivamente perigosos, e fugir deles é uma medida acertada; afinal todos já ouvimos, desde muito cedo, que não se deve brincar com fogo.

É desnecessário falar sobre o controle das taxas de glicose, colesterol e triglicerídios no sangue, bem como da pressão arterial, por ser assunto já bem conhecido do público. Eu, todavia, ainda tenho esperança de que o crescente avanço científico não tardará a comprovar que o açúcar, o sal, a gordura animal e, até, um pouco de bebida alcoólica, não fazem mal algum à saúde.

É esperar para ver; mas, enquanto isto, não deixem de seguir os conselhos hoje dados pela medicina.