Sendo muito próxima da data consagrada à proclamação da república, tais solenidades não comportavam desfiles, mas davam uma oportunidade adicional para exaltação do patriotismo e manter presente o culto à personalidade daquele que tinha sua foto oficial sempre por perto, com a pretensiosa frase: “O Brasil deposita sua fé e sua esperança no Chefe da Nação”.
Mas, talvez por força do hábito ou falta de iniciativa, a prática chegou à década de 50 pelo menos. Lembro-me disto porque iniciei minha carreira no serviço público em 1953, lotado na então Secretaria de Finanças do Estado do Rio de Janeiro, onde presenciei alguns desses eventos.
A sede da Secretaria, mais conhecida por Tesouro do Estado, estava instalada em prédio de dois andares na Rua Marechal Deodoro, em Niterói, possuindo uma varanda elevada sobre a entrada principal, em frente ao mastro destinado à bandeira.
Era então secretário daquela Pasta um campista por demais austero, do tipo que não dava intimidade para qualquer de seus mais próximos e categorizados auxiliares. Exceção havia apenas para o palhaço de circo “Carrapicho”, contínuo da Secretaria que trabalhava em Petrópolis; este, quando em Niterói, ia ao gabinete de todas as chefias, a começar pelo do secretário, para fazer suas palhaçadas. Sua apresentação terminava sempre com uma gargalhada fina e estridente, e um rodopio sobre um pé só.
Ao aproximar-se o Dia da Bandeira em 1953, o cerimonial do órgão começou a movimentar-se com vistas à realização do evento: solicitou-se à Policia Militar uma banda de música, apenas suficiente para executar o hino próprio; convidou para discursar um velho funcionário, orador para quaisquer circunstâncias, com voz empostada, colarinho engomado e gravata borboleta, tudo ao melhor estilo parnasiano.
O orador escolhido tinha plenas condições de falar de improviso; no entanto, resolveu planejá-lo daquela vez e inovar para torná-lo mais dinâmico. Para isto, escolheu um mote destinado a ancorar o desenvolvimento de sua fala durante o hasteamento da bandeira.
Chegados o dia e a hora, todos os funcionários foram convocados para o local da cerimônia, ocupando o pátio em frente à entrada principal do prédio, enquanto as altas autoridades ficaram na citada varanda.
Tudo pronto, aguardava-se apenas a presença do secretário, após o que a banda tocou o “Hino à Bandeira”. Em seguida, foi dada a palavra ao orador oficial. Este, com desembaraço e elegância, dirigindo-se enfaticamente ao pé do mastro, ordenou:
“Sobe, bandeira!”
Mas o guarda responsável pela operação, distraído, não ouviu o comando, frustando a intenção do orador.
Decorridos alguns segundos, nova ordem foi dada com um pouco mais de ênfase:
“Sobe, bandeira!!”
Desta vez o guardinha ouviu bem, mas atrapalhou-se com as cordas de alçamento e não conseguiu dar início à execução de sua tarefa.
A situação foi ficando tensa pois, independentemente da bolação do orador, toda a cerimônia restaria prejudicada se a bandeira não pudesse ser hasteada. Foi então que o próprio secretário, já visivelmente irritado, decidiu interferir pessoalmente, gritando:
“Sobe, bandeira!!!”
Mas também não foi possível atendê-lo devido a um problema com a carretilha do mastro, que emperrara.
Sua Excelência então retirou-se do local, o que significava o encerramento compulsório da cerimônia. Foi um vexame, um fiasco para todo o cerimonial; contudo, o episódio foi até divertido para os servidores em geral, dando margem a comentários e brincadeiras por um bom tempo.
Por oportuno, aproveito a oportunidade para , como nos velhos tempos, render minha homenagem ao “lindo pendão da esperança”, ao “símbolo augusto da paz”.