Em fevereiro de 2008.
Este texto é especialmente dedicado às inúmeras pessoas que, em virtude de minha vivência em concessionárias de serviços de eletricidade, já me questionaram em algum momento sobre o horário-de-verão.
Preliminarmente, cabe esclarecer que não se trata de coisa recente nem de invenção brasileira, sendo adotada por muitos países do mundo por possuir sólidos fundamentos técnicos e econômicos. Seu objetivo é alcançar uma redução da demanda ou carga de eletricidade, proporcionando importantes benefícios ao sistema elétrico supridor, e não o de diminuir o consumo de energia.
Do ponto de vista geográfico, só regiões mais afastadas da linha do equador oferecem condições favoráveis ao procedimento porque os dias tornam-se mais longos e as noites mais curtas no verão; contudo, para que um horário-de-verão seja bem sucedido, haverá também necessidade de que as maiores cargas sobre o sistema elétrico ocorram na mesma época.
Só as Regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil têm estado sujeitas ao artifício nos últimos anos, com o adiantamento dos relógios em 1 hora em relação ao horário normal. Apesar do nome, o horário especial ocupa 2 meses da primavera e outros 2 do verão, aproximadamente. Para bem compreender seu funcionamento, é indispensável o domínio de alguns conceitos técnicos aplicáveis ao caso, o que será visto a seguir.
Entende-se por carga o impacto que um equipamento ou instalação causa à rede elétrica quando a ela conectada, fazendo circular instantaneamente uma corrente; corrente, por sua vez, é a movimentação de elétrons nos condutores. A carga corresponde à potência efetivamente solicitada à rede, sendo potência definida cientificamente como a capacidade de realizar trabalho na unidade de tempo.
Na prática, todos sabem que os chuveiros elétricos são as maiores cargas em uma residência, enquanto as lâmpadas frias e os ventiladores são exemplos das menores; as grandes cargas exigem circuitos exclusivos devidamente protegidos por disjuntores.
A grandeza energia resulta do somatório dos produtos das cargas pelos respectivos tempos de duração; se a carga for constante em determinado período, basta multiplicar seu valor pelo tempo decorrido para obter-se a energia consumida.
Sendo a carga expressa em kilowatts (kW) e o tempo em horas (h), a energia será expressa em kilowatts-hora (kWh). Há aparelhos próprios para medição de todas as grandezas elétricas, inclusive os registradores gráficos e outros utilizados pelas concessionárias. O uso intensivo de chuveiros elétricos e aparelhos de ar condicionado conduzem a um grande consumo de energia porque são grandes as cargas e longos os tempos de utilização.
Cada consumidor, ou grupo de consumidores, comporta-se de uma maneira típica no que se refere às respectivas cargas, as quais são variáveis ao longo do tempo, havendo momentos em que são menores e outros em que são maiores. As cargas das residências, do comércio, dos serviços, da indústria, dos órgãos públicos e da iluminação em geral apresentam comportamentos diferenciados entre si; todavia, a experiência tem demonstrado que há um período de 2 horas no decorrer do dia, aproximadamente, no qual muitas cargas ocorrem simultaneamente, submetendo o sistema elétrico à soma delas. Tal período tem início ao anoitecer, quando aumenta significativamente a carga com iluminação e outras ainda permanecem com valores elevados: é o denominado horário da ponta ou pico, em que a carga é máxima.
Está, assim, montado o cenário no qual atuará o horário-de-verão: a antecipação introduzida em relação ao tempo normal, que tem sido de apenas 1 hora, promoverá um deslocamento das cargas no horário da ponta, evitando a simultaneidade entre algumas delas.
As repartições públicas encerrarão mais cedo suas atividades, o mesmo acontecendo com parte do comércio, da indústria e dos serviços; no entanto, a carga de iluminação não será atingida por depender fundamentalmente da claridade natural, que não se submete aos termos de um decreto.
Da redistribuição da carga no horário da ponta resulta uma redução da mesma da ordem de 3 a 4,5% em relação a que teria ocorrido sem a adoção do artifício, sendo esta cerca de 62.000.000 kW (ou 62.000 MW) na região submetida ao horário especial, e tendo sido de 4,2% a taxa de redução da carga obtida no período de 2007/2008, conclui-se ter sido ela de 2.600 MW aproximadamente.
Vê-se, então, que a economia obtida é equivalente a quase 3 vezes a potência da Usina de Furnas, a da Usina de Santo Antonio em construção no Rio Madeira e cerca de 86 vezes a da pequena hidrelétrica que pretendem construir em Cambuci.
Estando estimado hoje em US$1.000/kW o custo médio unitário de usinas hidrelétricas na Região Sudeste, valor que passa para US$1.400/kW quando instalada na Região Amazônica, conclui-se que a construção de hidrelétricas com potência total de 2.600 MW custaria, respectivamente, US$2.600.000 ou US$3.640.000 (R$4.500.000,00 ou R$6.300.000,00), se consideradas todas em uma mesma região. O custo unitário de termelétricas convencionais ou nucleares seria maior.
A adoção do horário em causa torna-se impositivo quando o sistema elétrico supridor não tem potência disponível suficiente para atender à demanda, sem o que haveria desligamento involuntário de circuitos por sobrecarga, podendo chegar-se ao temido apagão. Esta situação denuncia a falta de investimentos suficientes no setor.
Quando tal não é o caso, ele tem a finalidade de facilitar o manejo das máquinas e outros equipamentos dos sistemas de geração e transmissão, em proveito dos programas de manutenção, bem como o de evitar o acionamento de termelétricas para só operarem no horário de ponta. Como teria havido os investimentos necessários, o consumidor certamente estará pagando por eles através da tarifas. A entrada de termelétricas no sistema representa aumento dos custos operacionais e da poluição atmosférica.
Com a complexidade do sistema elétrico atual e a diversidade e exigências técnicas dos equipamentos e aparelhos receptores a eles conectados, não existe outra alternativa para reduzir a carga na ponta sem efetuar cortes programados do suprimento, o que caracterizaria um racionamento da carga.
Não há pesquisas sobre a satisfação do público diretamente atingido com a alteração de horário assim imposta, havendo pessoas que gostam dele e outras que o detestam; contudo, sua adoção não visa ao conforto da população, mas à racionalidade no uso da eletricidade privilegiando o aproveitamento da luz natural.
Preliminarmente, cabe esclarecer que não se trata de coisa recente nem de invenção brasileira, sendo adotada por muitos países do mundo por possuir sólidos fundamentos técnicos e econômicos. Seu objetivo é alcançar uma redução da demanda ou carga de eletricidade, proporcionando importantes benefícios ao sistema elétrico supridor, e não o de diminuir o consumo de energia.
Do ponto de vista geográfico, só regiões mais afastadas da linha do equador oferecem condições favoráveis ao procedimento porque os dias tornam-se mais longos e as noites mais curtas no verão; contudo, para que um horário-de-verão seja bem sucedido, haverá também necessidade de que as maiores cargas sobre o sistema elétrico ocorram na mesma época.
Só as Regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil têm estado sujeitas ao artifício nos últimos anos, com o adiantamento dos relógios em 1 hora em relação ao horário normal. Apesar do nome, o horário especial ocupa 2 meses da primavera e outros 2 do verão, aproximadamente. Para bem compreender seu funcionamento, é indispensável o domínio de alguns conceitos técnicos aplicáveis ao caso, o que será visto a seguir.
Entende-se por carga o impacto que um equipamento ou instalação causa à rede elétrica quando a ela conectada, fazendo circular instantaneamente uma corrente; corrente, por sua vez, é a movimentação de elétrons nos condutores. A carga corresponde à potência efetivamente solicitada à rede, sendo potência definida cientificamente como a capacidade de realizar trabalho na unidade de tempo.
Na prática, todos sabem que os chuveiros elétricos são as maiores cargas em uma residência, enquanto as lâmpadas frias e os ventiladores são exemplos das menores; as grandes cargas exigem circuitos exclusivos devidamente protegidos por disjuntores.
A grandeza energia resulta do somatório dos produtos das cargas pelos respectivos tempos de duração; se a carga for constante em determinado período, basta multiplicar seu valor pelo tempo decorrido para obter-se a energia consumida.
Sendo a carga expressa em kilowatts (kW) e o tempo em horas (h), a energia será expressa em kilowatts-hora (kWh). Há aparelhos próprios para medição de todas as grandezas elétricas, inclusive os registradores gráficos e outros utilizados pelas concessionárias. O uso intensivo de chuveiros elétricos e aparelhos de ar condicionado conduzem a um grande consumo de energia porque são grandes as cargas e longos os tempos de utilização.
Cada consumidor, ou grupo de consumidores, comporta-se de uma maneira típica no que se refere às respectivas cargas, as quais são variáveis ao longo do tempo, havendo momentos em que são menores e outros em que são maiores. As cargas das residências, do comércio, dos serviços, da indústria, dos órgãos públicos e da iluminação em geral apresentam comportamentos diferenciados entre si; todavia, a experiência tem demonstrado que há um período de 2 horas no decorrer do dia, aproximadamente, no qual muitas cargas ocorrem simultaneamente, submetendo o sistema elétrico à soma delas. Tal período tem início ao anoitecer, quando aumenta significativamente a carga com iluminação e outras ainda permanecem com valores elevados: é o denominado horário da ponta ou pico, em que a carga é máxima.
Está, assim, montado o cenário no qual atuará o horário-de-verão: a antecipação introduzida em relação ao tempo normal, que tem sido de apenas 1 hora, promoverá um deslocamento das cargas no horário da ponta, evitando a simultaneidade entre algumas delas.
As repartições públicas encerrarão mais cedo suas atividades, o mesmo acontecendo com parte do comércio, da indústria e dos serviços; no entanto, a carga de iluminação não será atingida por depender fundamentalmente da claridade natural, que não se submete aos termos de um decreto.
Da redistribuição da carga no horário da ponta resulta uma redução da mesma da ordem de 3 a 4,5% em relação a que teria ocorrido sem a adoção do artifício, sendo esta cerca de 62.000.000 kW (ou 62.000 MW) na região submetida ao horário especial, e tendo sido de 4,2% a taxa de redução da carga obtida no período de 2007/2008, conclui-se ter sido ela de 2.600 MW aproximadamente.
Vê-se, então, que a economia obtida é equivalente a quase 3 vezes a potência da Usina de Furnas, a da Usina de Santo Antonio em construção no Rio Madeira e cerca de 86 vezes a da pequena hidrelétrica que pretendem construir em Cambuci.
Estando estimado hoje em US$1.000/kW o custo médio unitário de usinas hidrelétricas na Região Sudeste, valor que passa para US$1.400/kW quando instalada na Região Amazônica, conclui-se que a construção de hidrelétricas com potência total de 2.600 MW custaria, respectivamente, US$2.600.000 ou US$3.640.000 (R$4.500.000,00 ou R$6.300.000,00), se consideradas todas em uma mesma região. O custo unitário de termelétricas convencionais ou nucleares seria maior.
A adoção do horário em causa torna-se impositivo quando o sistema elétrico supridor não tem potência disponível suficiente para atender à demanda, sem o que haveria desligamento involuntário de circuitos por sobrecarga, podendo chegar-se ao temido apagão. Esta situação denuncia a falta de investimentos suficientes no setor.
Quando tal não é o caso, ele tem a finalidade de facilitar o manejo das máquinas e outros equipamentos dos sistemas de geração e transmissão, em proveito dos programas de manutenção, bem como o de evitar o acionamento de termelétricas para só operarem no horário de ponta. Como teria havido os investimentos necessários, o consumidor certamente estará pagando por eles através da tarifas. A entrada de termelétricas no sistema representa aumento dos custos operacionais e da poluição atmosférica.
Com a complexidade do sistema elétrico atual e a diversidade e exigências técnicas dos equipamentos e aparelhos receptores a eles conectados, não existe outra alternativa para reduzir a carga na ponta sem efetuar cortes programados do suprimento, o que caracterizaria um racionamento da carga.
Não há pesquisas sobre a satisfação do público diretamente atingido com a alteração de horário assim imposta, havendo pessoas que gostam dele e outras que o detestam; contudo, sua adoção não visa ao conforto da população, mas à racionalidade no uso da eletricidade privilegiando o aproveitamento da luz natural.
Nos momentos que precedem a implantação do novo horário, algumas dificuldades afetam especialmente os serviços de transportes e comunicações, que são forçados a comprimir suas escalas ou grades.
Como o centro administrativo e os principais pólos financeiros, comerciais e de serviços do País estão submetidos ao horário-de-verão, todas as demais regiões ficam indiretamente afetados por ele; ou seja, há inconvenientes maiores para elas, inclusive pela antecipação dos noticiários e das novelas, ao mesmo tempo em que ficam sujeitas ao horário local.
O horário-de-verão causa também uma pequena diminuição do consumo de energia elétrica, embora não seja esta sua finalidade precípua. A mídia, de um modo geral, tem se preocupado em divulgar apenas este aspecto, o que leva grande parte da população a considerar a medida injustificável.
Como o centro administrativo e os principais pólos financeiros, comerciais e de serviços do País estão submetidos ao horário-de-verão, todas as demais regiões ficam indiretamente afetados por ele; ou seja, há inconvenientes maiores para elas, inclusive pela antecipação dos noticiários e das novelas, ao mesmo tempo em que ficam sujeitas ao horário local.
O horário-de-verão causa também uma pequena diminuição do consumo de energia elétrica, embora não seja esta sua finalidade precípua. A mídia, de um modo geral, tem se preocupado em divulgar apenas este aspecto, o que leva grande parte da população a considerar a medida injustificável.
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