segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O ancião era eu

Quando eu era bem mais jovem, entendia por ancião uma pessoa de idade muito avançada, já trêmula, e incapaz de executar atividades comuns, como andar com desembaraço, levantar-se com facilidade, falar, ouvir e enxergar bem, tudo isto sem falhas graves da memória.

Mas, segundo as definições contidas nos léxicos, basta que se tenha a idade avançada para que qualquer pessoa possa ser considerada anciã, ainda que participe de grupos de terceira idade. Será indiferente se usa ou não bengala, andador, cadeira de rodas, ou se tenha um acompanhante sempre por perto.

O número de idosos tem aumentado significativamente com o avanço da Medicina e do padrão de vida hoje possível, o que se tornou um sério problema para os sistemas de previdência social no mundo inteiro. Pode-se até imaginar que a flexibilidade dada, em português, ao plural de ancião tenha sido para evitar erro em seu uso frequente, daí ter-se indistintamente anciãos, anciões e anciães.

Eu tenho podido envelhecer com dignidade, procurando manter-me ativo e, sobretudo, cuidando para exercitar bem a memória e o raciocínio. Até hoje, do alto dos meus 80 anos, não parei de trabalhar, e tenho plena consciência de que meu trabalho ainda tem sido útil e apreciado.

Aliás, eu considero o trabalho fora de casa um dos melhores passatempos que existem para o homem idoso; há sempre a oportunidade de conhecer-se pessoas interessantes e fazer novas amizades. E é, também, conveniente por não envolver gastos como os outros; ao contrário, sempre rende alguma coisa. A grande arte consiste em procurar gostar daquilo que faz, independentemente de sua preferência.

É preciso aprender a conviver e conformar-se com a velhice, pois, realmente, as perdas que ela acarreta são importantes, contínuas e inexoráveis. Quando isto é possível, consola-se passando a viver a vida dos filhos e netos.

São inúmeras as coisas capazes de convencer-nos de que estamos velhos; por isto, não há necessidade de que ninguém venha alertar-nos sobre isto. Basta que nos encontremos com colegas de escola ou amigos que não vemos há muito tempo, e que sabemos ser da nossa idade, para que possamos inferir o estrago feito pelo tempo também em nós. Fotos em grupo são sempre reveladoras a este respeito. Na rua, não raro percebemos que estamos sendo distinguidos por uma atenção especial de pessoas desconhecidas, cedendo-nos assento nas conduções ou melhor lugar nas filas. Mas, se tomarmos um táxi, devemos ter cuidado, porque os motoristas costumem partir antes que tenhamos conseguido acomodar nossas pernas dentro do veículo, sobretudo se elas forem longas.

Faz poucos dias, ganhei de presente um estojo, para uso individual, apropriado para organizar a distribuição de medicamentos de uso contínuo ao longo da semana, muito útil para as cuidadoras no tratamento de anciãos. Ele é muito prático e proporciona uma grande ajuda a quem dele necessita; por isto, vou guardá-lo cuidadosamente para tê-lo no futuro.
Apesar das perdas naturais, hoje sou capaz de fazer muitas coisas melhor do que fazia antes.

Dias destes, meu atual chefe – que nem tão novo é assim – entrou na sala de seus assessores especiais, dentre os quais me incluo, demonstrando grande entusiasmo com algum trabalho que eu havia feito, o qual me deu margem para externar um bom conhecimento e experiência sobre o assunto, e disse enfaticamente:

– Não há como termos um ancião por perto para ajudar-nos!!

Neste caso, o ancião era eu...