O noticiário tem sido pródigo em informações e comentários sobre o desempenho escolar no Brasil, abrangendo todos os níveis e a natureza das instituições, verificando-se que se encontram todas em situação muito precária, seja no segmento público como no privado.
Pode parecer incoerente que, em uma época em que as facilidades são muito maiores do que no passado, devido sobretudo aos avanços tecnológicos, possa o aprendizado regredir de forma tão acentuada.
O que o governo e a sociedade parecem não compreender é que a mola impulsionadora de todo o processo ensino-aprendizagem são os mestres, estes mesmos que continuam ignorados, sem oportunidade de aprimoramento e mal remunerados.
Muito pouco tem adiantado os inúmeros recursos hoje existentes em reprografia, gravações e projeções, livros e mais livros didáticos, e, por último, os computadores. Muitos pensam, inclusive a administração pública, que basta colocar-se computadores nas mãos dos alunos para que sejam resolvidos todos os problemas da educação. Ledo engano: o que se constata é justamente o contrário.
Longe de mim a intenção de negar a importância da informática, que é uma ferramenta importantíssima para a maioria das atividades desenvolvidas pelo homem na atualidade; sua aplicação é quase indispensável e ilimitada. No entanto, o que vem acontecendo é a falta de controle dos pais em relação ao uso do computador por seus filhos. Estes são capazes de passar horas a fio na frente do equipamento vendo coisas que nada têm a ver com seus estudos regulares, dedicando-se muitos a percorrerem páginas inconvenientes ou perigosas.
As crianças de hoje, ao que parece, já nascem sabendo tudo sobre computadores, telefones celulares e outros aparelhos eletrônicos, por mais sofisticados que possam ser, enquanto nós, os mais velhos, temos medo de tocá-los; e ficamos orgulhosos do desenvolvimento deles.
São tantas as atrações que tais máquinas podem oferecer que elas se transformaram em um porto dos mais inseguros para os jovens ainda destituídos de senso de responsabilidade; a consequência é o despreparo e o descaminho. Ouso mesmo dizer que o uso indiscriminado de computadores por crianças e adolescentes tem sido contraproducente do ponto de vista educacional, dando origem a uma geração de verdadeiros alienados. Eles tomam conhecimento de tudo, exceto daquelas coisas que fazem parte de sua lição. O computador passou a ser um maravilhoso brinquedo; o sono resultante de uma noite mal dormida devido à brincadeira faz com que diminua o rendimento escolar.
De um modo geral, escrevem pessimamente; nada aprendem de matemática e de outras ciências exatas; nada sabem de história geral e do Brasil, bem como de geografia física, econômica e política; desconhecem a organização político-administrativa do Estado; jamais foram apresentados à literatura, à teoria musical e às outras formas mais elevadas de manifestação cultural.
Além de pouco ensinar, o computador ainda introduz vícios de linguagem empregados nos batepapos e mensagens eletrônicas, onde costumam ser abreviadas as palavras, e ignorados os acentos gráficos e a pontuação. Sua adjetivação não vai além do “legal”, “beleza” e “manero”, sendo recorrentes as manifestações do tipo “falô” e “valeu”.
Se, na escola, pedem-lhes uma pesquisa sobre determinado assunto, eles entram rapidamente no “site” apropriado e de lá sacam, sem qualquer avaliação, o primeiro texto que encontram a respeito e o entregam sem adaptação ou comentário algum.
Quando o computador se transforma em vício, uma das consequências é o isolamento de seu usuário, que passa a ignorar e não participar dos planos e das preocupações de seus familiares, em especial dos mais velhos, inviabilizando uma convivência sempre proveitosa entre as diferentes gerações; outra é a imposição de sedentarismo altamente prejudicial à saúde física.
Os resultados apurados no último Enen evidenciam uma situação de emergência, uma vez que um sistema educacional de baixa qualidade é como uma doença silenciosa e grave, com a qual um país, que almeja ser grande, não pode conviver.
É evidente que deve haver muitas exceções ao que está dito aqui, mas elas são menos numerosas do que deveriam ser.