quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ressurreição de todo dia

Em fevereiro de 2008.

Por ocasião da Semana Santa de 2007, o conhecido teólogo cristão LEONARDO BOFF publicou um artigo em sua coluna do Jornal do Brasil intitulado “Ressurreição às Sextas”, em que procurava estabelecer um paralelo entre a dolorosa paixão de Cristo e sua glória eterna com fatos da vida cotidiana que afetam as classes menos favorecidas.

Dizia ele que, estando em um bar modesto do Rio numa sexta-feira ao anoitecer, observou, na mesa a seu lado, um grupo de trabalhadores humildes, operários que acabavam de cumprir sua jornada semanal e bebericavam alegremente. Ficou emocionado ao vê-los ali, desfrutando de um momento de prazer, com brincadeiras e risadas que, certamente, aumentavam sua auto-estima e dava-lhes ânimo para retornar à luta na semana seguinte, sem prejuízos dos biscates e tarefas domésticas que poderiam realizar naqueles que poderiam ser seus dias de folga. Ousando parafraseá-lo, apresento-lhes a pequena história a seguir.
Em minhas freqüentes caminhadas pela orla marítima de Icaraí, Ingá e Boa Viagem, na cidade de Niterói, defronto-me com uma situação ainda mais comovente patrocinada por um mendigo. Ele estabeleceu-se em Boa Viagem, em um recuo da calçada, com seus 3 vira-latas, num ponto estratégico onde se pode apreciar deslumbrante panorama. Durante o dia, perambula pelas praias e ruas adjacentes sempre acompanhado de um de seus animais, enquanto os outros permanecem de guarda no local supracitado, demarcando o território.

Certa vez, passei por aquele lugar quando ainda não havia clareado o dia e ele ainda dormia cercado por seus 3 cachorros. Inadvertidamente, desviei-me um pouco da rota e aproximei-me mais deles; foi o bastante para que me dessem um grande susto, ameaçando-me com latidos e ranger de dentes, deixando bem claro que não estavam ali para brincadeiras, mas para proteger seu dono e sua morada.

Em outra oportunidade, minha passagem coincidiu com o instante em que o indigente acabara de acordar e sentara sobre a laje. Foi então saudado de maneira esfuziante por seus vira-latas, que pulavam sobe ele, lambiam-lhe as mãos e o rosto, em um espetáculo que pode ter durado alguns minutos.

É certo que tal manifestação de afeto e carinho deve acontecer diariamente, proporcionando àquele pobre homem um breve tempo de glória, ao qual, no entanto, parecia estar indiferente.

O que poderia justificar tanto amor daqueles irracionais por alguém que sequer os alimenta ou lhes dá abrigo, pois a comida vem dos vizinhos e dormem todos ao relento, em cima de cimento nu? Nem colchonete, almofada ou papelão que os livre do contato direto com a placa dura e fria.

Para aquele miserável, não há fim-de-semana, feriado ou qualquer outra folga; seus dias são absolutamente iguais: perambular pelas ruas sem objetivos; retornar a sua base para dormir; e acordar no dia seguinte. Mas sempre acompanhado de seus fiéis e, talvez, únicos companheiros.

Diante das situações narradas acima, cabe uma reflexão sobre a relatividade dos conceitos, tais como paixão e glória, sofrimento e prazer, na vida terrena dos pobres mortais.

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