segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O ancião era eu

Quando eu era bem mais jovem, entendia por ancião uma pessoa de idade muito avançada, já trêmula, e incapaz de executar atividades comuns, como andar com desembaraço, levantar-se com facilidade, falar, ouvir e enxergar bem, tudo isto sem falhas graves da memória.

Mas, segundo as definições contidas nos léxicos, basta que se tenha a idade avançada para que qualquer pessoa possa ser considerada anciã, ainda que participe de grupos de terceira idade. Será indiferente se usa ou não bengala, andador, cadeira de rodas, ou se tenha um acompanhante sempre por perto.

O número de idosos tem aumentado significativamente com o avanço da Medicina e do padrão de vida hoje possível, o que se tornou um sério problema para os sistemas de previdência social no mundo inteiro. Pode-se até imaginar que a flexibilidade dada, em português, ao plural de ancião tenha sido para evitar erro em seu uso frequente, daí ter-se indistintamente anciãos, anciões e anciães.

Eu tenho podido envelhecer com dignidade, procurando manter-me ativo e, sobretudo, cuidando para exercitar bem a memória e o raciocínio. Até hoje, do alto dos meus 80 anos, não parei de trabalhar, e tenho plena consciência de que meu trabalho ainda tem sido útil e apreciado.

Aliás, eu considero o trabalho fora de casa um dos melhores passatempos que existem para o homem idoso; há sempre a oportunidade de conhecer-se pessoas interessantes e fazer novas amizades. E é, também, conveniente por não envolver gastos como os outros; ao contrário, sempre rende alguma coisa. A grande arte consiste em procurar gostar daquilo que faz, independentemente de sua preferência.

É preciso aprender a conviver e conformar-se com a velhice, pois, realmente, as perdas que ela acarreta são importantes, contínuas e inexoráveis. Quando isto é possível, consola-se passando a viver a vida dos filhos e netos.

São inúmeras as coisas capazes de convencer-nos de que estamos velhos; por isto, não há necessidade de que ninguém venha alertar-nos sobre isto. Basta que nos encontremos com colegas de escola ou amigos que não vemos há muito tempo, e que sabemos ser da nossa idade, para que possamos inferir o estrago feito pelo tempo também em nós. Fotos em grupo são sempre reveladoras a este respeito. Na rua, não raro percebemos que estamos sendo distinguidos por uma atenção especial de pessoas desconhecidas, cedendo-nos assento nas conduções ou melhor lugar nas filas. Mas, se tomarmos um táxi, devemos ter cuidado, porque os motoristas costumem partir antes que tenhamos conseguido acomodar nossas pernas dentro do veículo, sobretudo se elas forem longas.

Faz poucos dias, ganhei de presente um estojo, para uso individual, apropriado para organizar a distribuição de medicamentos de uso contínuo ao longo da semana, muito útil para as cuidadoras no tratamento de anciãos. Ele é muito prático e proporciona uma grande ajuda a quem dele necessita; por isto, vou guardá-lo cuidadosamente para tê-lo no futuro.
Apesar das perdas naturais, hoje sou capaz de fazer muitas coisas melhor do que fazia antes.

Dias destes, meu atual chefe – que nem tão novo é assim – entrou na sala de seus assessores especiais, dentre os quais me incluo, demonstrando grande entusiasmo com algum trabalho que eu havia feito, o qual me deu margem para externar um bom conhecimento e experiência sobre o assunto, e disse enfaticamente:

– Não há como termos um ancião por perto para ajudar-nos!!

Neste caso, o ancião era eu...

sábado, 17 de julho de 2010

Rumo ao Romão

A Cachoeira do Romão é um importante acidente hidrográfico no curso do Rio Paraíba do Sul, localizado no trecho entre Cambuci e Pureza. Eu só a conhecia de nome.

Recentemente, ficou mais em evidência diante do propósito governamental de construir ali uma usina, que teria uma potência irrisória diante da magnitude da intervenção ambiental.

Uma pessoa bem próxima e amiga ficou muito admirada quando lhe revelei que nunca tinha ido a tal cachoeira; para ele, que foi na juventude um pescador profissional na região e perfeito conhecedor do rio, parecia inconcebível que eu, nascido e criado em Cambuci, jamais tivesse visto aquela maravilha da natureza, que não é percebida por quem passa por sua margem esquerda.

A partir daí, teve início um processo de cobrança no sentido de que eu, em uma de minhas viagens à terrinha, me dispusesse a corrigir tão grave omissão.

Chegou, enfim, o dia em que me encontrei com o amigo e, num impulso, disse-lhe que estava pronto para conhecer o Romão. Isto bastou para que ele entrasse rapidamente em contato com pescador do lugar, dono de uma potente lancha, para programar a pretendida visita. Foi tudo muito rápido: logo estávamos nós embarcados com a roupa do corpo, sem colete salva-vidas, capacete ou qualquer outro equipamento de segurança, e partimos rio abaixo.

Na minha cabeça, quando chegássemos próximo ao nosso destino, alguém iria dizer-me:

- Isto aí é o Romão! – pode olhar e fotografar, se quiser!

Mas não foi assim que aconteceu; o piloto partiu pra dentro do cachoeirão sem qualquer aviso prévio. Logo de cara, um tranco fez a lancha voar uns 15 metros e cair na frente com um impacto capaz de espatifá-la.

Em seguida, com grande habilidade, o piloto levava a lancha para a esquerda e para a direita, desviando-se de pedras ameaçadoras; em uma delas ele ancorou, mergulhava e vinha à tona com 3 camarões sapateiros – crustáceos típicos do lugar-, 1 na boca e 1 em cada mão, e os atirava para que nós os guardássemos.

Chegamos finalmente ao remanso; foi um grande alívio pra mim. Dali nos dirigimos à margem direita. Tomei então conhecimento de que retornaríamos pela mesma rota, o que era lógico, pois lancha não navega por terra.

Apesar de já possuir alguma experiência, a adrenalina subiu bastante durante o percurso inverso; alcançado o topo, voltamos ao ponto de partida. Daquela vez, todos se salvaram...

Tomei o caminho de casa sentindo-me um herói; e, antes mesmo de lá chegar, fui abordado por outro grande amigo, figura boníssima e conhecidíssima na cidade; como aposentado, pode percorrê-la de bicicleta o dia inteiro, e dar conta de tudo o que nela acontece. Foi logo dizendo:

- Tô sabendo, Doutor, que o senhor desceu o Romão com o DADAU!

Ao que lhe respondi com orgulho:

- Não só desci, como subi também!

- O DADAU é maluco, Doutor!

Aí, já era tarde.

Mas não é bem assim: o rapaz é simpático, atencioso, prestativo, habilidoso e sensato; só que, às vezes, é um pouco audacioso demais.

A aventura é imperdível. Vale a pena, eu recomendo.

Reminiscências de infância

Passei minha infância na “Chácara do Sossego”, hoje integrada ao perímetro urbano da cidade de Cambuci, onde vivi muitas experiências agradáveis ao lado de meus pais, 9 irmãos, muitos empregados, primos e agregados. Era como se estivéssemos em permanente festa; de tudo aquilo:


-ficou o sabor das inúmeras e saborosas frutas, colhidas com minhas próprias mãos;

-ficou a alegria dos piqueniques na Caixa D’Água e de variadas brincadeiras infanto-juvenis;

-ficaram os sons dos caxambus à distância e das harmoniosas folias de reis, estas algumas vezes em nossa sala;

-ficou o encantamento das Festas de Maio, que culminavam com a coroação de Nossa Senhora;

-ficou a lembrança de nossos passeios à Fazenda do Retiro, quando viajávamos em carro de bois;

-ficou um pouco do temor provocado pelas assustadoras histórias de sacis-pererê, mulas sem cabeça e lobisomens que SÁ LUIZA contava às crianças, quando, chegada de sua roça, hospedava-se em nossa casa;

-ficou, ainda, a admiração que tínhamos ao ver aquela idosa e sinistra senhora fumar seu pequeno cachimbo de barro e cuspir, seguidamente, a 10 metros de distância;

-ficou a lembrança daquelas noites de maio em que, descalço e com calças curtas, assistia aos leilões da igreja realizados sob o martelo do Sr. ROMUALDO MATOLA, tendo meu pai MANOEL GOMES como tesoureiro.


Expostos todos ao sereno e ao frio, um produto era regularmente oferecido pelo leiloeiro:


- Quanto me dão por uma dose de vinho do Porto “Madeira R” ? Já tenho um mil réis!


A extensão e as características do espaço físico exclusivo de que dispúnhamos para brincar permitiam-nos praticar inúmeras atividades divertidas e, às vezes, perigosas e preocupantes, sobretudo as que se realizavam sob inspiração de meu irmão SANTINHO. Eu, por exemplo, tinha muita dificuldade de subir em árvores, mas subia; até que desisti quando, no alto de um pé de jenipapo, pus a mão em cima de uma casa de marimbondos. Permitia, também, que tivéssemos muitas árvores – as frutíferas e as da capoeira - e criação de aves, porcos e cabras, além de uma enorme horta.


Um pequeno e movimentado campo de futebol foi construído na várzea, mas eu preferia treinar e jogar no infantil do FLORESTA A.C.; um dia chutei o chão e quase quebrei meu pé. O socorro foi rápido: o treinador ordenou que todos os garotos urinassem sobre a área afetada.


O projeto de minha mãe de produzir seda era muito interessante; contudo, não deu o resultado esperado. Dele restaram duas alas de amoreiras – suas folhas alimentavam as lagartas, o bicho da seda; as frutas, comíamos nós – que atraía uma infinidade de pássaros, sobretudo sanhaços e guachos, os quais eram impiedosamente caçados por mim e primos.


Vigiávamos atentamente as galinhas poedeiras; quando elas anunciavam seu feito em qualquer ponto do quintal, recolhíamos seus ovos e íamos correndo fazer um bate-bate, uma iguaria feita com ovos frescos crus batidos, com acréscimo de farinha de mandioca e açúcar.


Na lavagem de roupa daquele povo usava-se uma bacia de grandes dimensões, que nós utilizávamos também como embarcação nas grandes enchentes, em que a água represada do Valão Dantas atingia as partes mais baixas de nossa chácara. Saíamos de bacião, como a denominávamos, pelo mangueiral da TIA PITULA, causando admiração, espanto ou preocupação em muita gente.


SÃO JOÃO era festejado com a tradicional fogueira, batata doce e fogos, com a presença de muitos parentes e amigos; não faltava quem, no final, passasse sobre as brasas caminhando ou correndo descalço. Eventualmente, deliciávamo-nos com desafios cantados, protagonizados pelo repentista OSMAR BESSA.Praticávamos como pilotos de corrida de uma Fórmula Especial, vencendo um desnível de 30 m desde a Caixa D’Água até em baixo, em uma estradinha de terra cheia de curvas, a bordo de um pequeno veículo artesanal acionado por gravidade, todo em madeira e com rodas de ferro, de fabricação própria. Coisa pra gente grande, mas eu participava das disputas.

A presença do TOMIX em minha infância, de meus irmãos menores e de todos os da casa foi muito importante e inesquecível. Cão mestiço forte e valente, de pelo curto e trigueiro, superinteligente e amigo fiel, servia ele para guarda, caça e brinquedo para as crianças. Qualquer pessoa ou animal que penetrasse em seu território sem os devidos cuidados seria atacado e expulso; sua docilidade com as crianças chamava a atenção, e não atacava quando estava fora dos estritos limites da propriedade. Matou dezenas de jararacas: de uma bocada, se estivessem enroladas; ou apanhadas pelo meio e sacudidas até partirem-se em duas, se
em movimento. Muitos gatos mais lerdos ou distraídos também se deram mal. Mordeu muita gente importante e até um mendigo, o MANÉ BODE. Mas havia um verdureiro e vendedor de bananas que vinha lá da Cristalina com duas cestas enormes e entrava na chácara sem pedir licença: ele conseguia cercar o animal com suas cestas até que aparecesse alguém da família para socorrê-lo.

O TIO VICENTE, irmão mais velho e muito amigo da mamãe, também teve seus momentos com o TOMIX. Era ele um assíduo frequentador de nossa casa, onde mantinha longos papos
em família. Por dever de ofício, teve que mudar-se para Miracema, onde morou cerca de 2 anos. Ao retornar, sem saber que lá havia um novo morador, cuidou logo de ir visitar sua irmã; ao tentar fazê-lo, levou uma carreira monumental do cachorro. Sua reação imediata foi escrever um bilhete mais ou menos nos seguintes termos:

- Natalina, enquanto você tiver aí essa fera eu não vou mais
visitá-la.


Minha mãe não pôde fazer nada porque o animal já criara sólidas raízes naquele território.


Aconteceu que, certo dia, entrou ele na loja de meu pai, que ficava na praça da cidade, e lá estava o TOMIX deitado. Bastante ressabiado, ele olhou para o bicho, que se levantou alegremente fazendo festa para ele, a qual se tornava mais efusiva à medida que estalava seus dedos. Rapidamente pensou:


- É hoje que eu vou ver Natalina.


Ato contínuo, saiu para a rua em direção à chácara, sempre estalando os dedos e recebendo em troca amigáveis manifestações do seu acompanhante. Caminhou até a porteira da chácara, que ficava a uma distância aproximada de 300 m, quando teve uma desagradável surpresa: o cachorro passou para o lado de dentro e arreganhou-lhe os dentes ameaçadoramente.


Tanto fez TOMIX que acabou picado na testa por uma cobra e, muito pior que isto, sendo castrado.


Nós, os menores, tínhamos grande admiração por nosso irmão SANTINHO, dotado de muita ousadia e múltiplas inteligências; além disto, era ele muito carinhoso conosco e nos proporcionava muitas brincadeiras divertidas, ora construindo circos, balanços, moinhos d’água, ora preparando o bacião ou armando as fogueiras. Até mesmo o choquinho foi descoberto por ele, que consistia em fazer com que um de nós trepássemos em uma cadeira e colocássemos o dedo em bocal de lâmpada pendente, formando, em seguida, uma fila de mãos dadas a fim de que todos participássemos da brincadeira. Quê loucura! Naquele tempo a tensão da rede elétrica era tão baixa que só sentíamos uma pequena dormência; as lâmpadas, quando acesas, mais pareciam um tomate maduro.Houve um ano em que não tivemos o Natal de costume, em que meu pai, após encerrar os trabalhos em sua loja, levava para casa nossos presentes já tarde da noite do dia 24. Como aquele dia amanhecera sem energia elétrica, foram mobilizados os recursos do estabelecimento para enfrentar aquela eventualidade, com a instalação de lampiões nos locais estratégicos. Mas SANTINHO preocupara-se também com a situação da praça caso a energia não retornasse até o anoitecer, e resolveu fazer um facho capaz de iluminá-la.

Valendo-se de seus conhecimentos, pegou no almoxarifado da loja um tubo de papelão duro, daqueles próprios para enrolar cetim, que mediam aproximadamente
90 cm de comprimento por 6 cm de diâmetro, bloqueando uma de suas extremidades; em seguida, arranjou salitre, carvão e enxofre, ingredientes básicos para fabricação de pólvora artesanal. O próximo passo foi encher o tubo já preparado com a tal pólvora, e aguardar os acontecimentos.

Eis que a noite chegou, mas a energia não, deixando todos os logradouros às escuras. SANTINHO, então, reuniu seus companheiros de fuzarca, apanhou o artefato, acendeu-o e saiu pela praça, proporcionando uma iluminação feérica, para deslumbramento de todos. Porém, ao passar em frente a um bar, um taxista alcoolizado partiu em sua direção com o propósito de acabar com aquela cena. Disputaram, os dois, a posse do facho até que o intruso fez menção de tapar a saída do fogo. Sabedor do perigo que aquilo representava, SANTINHO largou o artefato na mão do outro e saiu fora. Deu-se uma explosão que arrebentou a mão do infeliz.


Havia na cidade uma baratinha, modelo de carro lançado naquela época que se tornou famoso, e que muita inveja deveria despertar em alguns, que também merece um lugar nesta história. Ela pertencia ao Padre ROCHA, que com ela desfilava muito à vontade e orgulhosamente pelas ruas do lugar. Eis que chegava ele de São João do Paraíso pela estrada que margeava terras da nossa chácara. Lá estava SANTINHO debaixo de uma goiabeira quando a avistou com a capota arriada, no rumo da cidade. De imediato, ocorreu-lhe pegar uma goiaba podre para – tudo indica – arremessá-la contra o parabrisa do veículo; contudo, desta vez não foi preciso em sua pontaria e acertou, em cheio, a testa do pároco, o qual seguiu em frente como pôde, sem reclamar.


A vítima, já antiga na cidade, conhecia bem sua jurisdição e seus paroquianos, e não teve dificuldade em intuir de quem poderia ter partido aquela provocação. Dias depois, haveria aula de catecismo ministrada pessoalmente por ele, à qual SANTINHO deveria comparecer. Preocupado com o acontecido, sobre o qual só ele e o seu padre tinham conhecimento, disse à sua mamãe que não queria ir à aula na igreja, obtendo a seguinte resposta:


- Nada disto! Já na semana passada você comeu banana d’água só para ficar com dor de cabeça e não ir lá; mas hoje você vai nem que seja arrastado pelas orelhas.


E lá foi ele bastante assustado.


Ao vê-lo ao seu alcance, deve ter pensado o padre:


- É hoje que eu começo a acertar as contas com este pirralho!


Ele tinha por hábito ministrar suas aulas com uma vareta ponteaguda na mão. SANTINHO, que mais tarde o reconhecemos como um hiperativo, tinha grande dificuldade de assistir às aulas da escola ou, mesmo, de permanecer parado em qualquer lugar, sendo muito fácil imaginar sua situação em uma aula de catecismo. Por isto, ele distraia-se com frequência, e, quando tal ocorria, era futucado bruscamente nas costelas com a pergunta:


- Não é mesmo, Seu MANOEL DOS SANTOS?!


Assim, recebeu ele de
3 a 4 futucadas nas costelas por aula até o final do curso, sem dizer nada em casa.

Mas havia uma grande predominância das atividades lúdicas tranquilas e ingênuas desenvolvidas pelos menores. A cada novo ano repetia-se esta brincadeira: o vento do noroeste, que soprava então com regularidade no mês de agosto, já nos encontrava equipados com grandes e multicoloridas pipas habilidosamente confeccionadas por meu pai. Nós a empinávamos alegremente ao cair daquelas tardes.


sábado, 6 de março de 2010

Paletó e gravata: até quando?

O calor tem estado escaldante por aqui, todos já perceberam; e agora, além das temperaturas indicadas nos termômetros tradicionais, temos que nos preocupar também com a moderna sensação térmica, segundo a qual a temperatura equivalente à que temos estado expostos chega a atingir 50º C – pelo menos, é o que dizem. É o caso, por exemplo, em que temos efetivamente 40ºC e não corre uma aragem sequer.

Nos grandes centros urbanos, onde a situação parece ser mais grave, os hospitais e postos de saúde vivem superlotados com pessoas vítimas de desidratação e insolação, sobretudo crianças e idosos, tendo ocorrido 32 óbitos na cidade de Santos-SP em apenas 3 dias. Competições esportivas em horários impróprios já vitimaram atletas em vários pontos do País, e muitos devem ter assistido pela televisão, há alguns dias, um repórter desmaiar repentinamente diante da câmera.

Seria desejável, portanto, que fossem tomadas todas as medidas preventivas possíveis no sentido de proporcionar mais conforto aos cidadãos, e não a imposição de costumes arcaicos e inadequados ao nosso clima, como é o caso do uso do paletó e gravata, pois se trata de uma questão de saúde pública.

São dignas de pena as pessoas que, em pleno verão, andam pelas ruas expostas ao sol em traje passeio completo, dentre elas advogados, despachantes e representantes comerciais, bem como autoridades públicas, algumas assemelhando-se a Judas engravatados. Cumpre, a maioria, exigências de repartições públicas, notadamente de tribunais, ou de organizações privadas. O pressuposto é que a dignidade das pessoas está vinculada à sua maneira de vestir-se, o que é um engano: de fato, bandidões de carinha boa e muito bem vestidos circulam por aí praticando contravenções e crimes, até hediondos.

Quando, no século XIX, ingleses, franceses e outros europeus resolveram lotear entre si terras da África para nelas estabelecerem colônias, deixaram para trás suas ceroulas, roupas e meias de lã, sobretudos, chapéus de lebre e boinas, luvas de couro e botas forradas e impermeáveis, e cuidaram logo de confeccionar trajes de algodão e linho, compostos de bermudões, jalecos, chapéus de abas largas e sandálias leves.

No Brasil, o Presidente JÂNIO QUADROS parece ter sido o único governante sensível ao problema, já que instituiu, para seu uso, uma espécie de uniforme funcional que o liberava do paletó e da gravata. Talvez pretendesse ir além, regulamentando a matéria no serviço público; porém renunciou antes, e aquele seu exemplo não foi aproveitado por seus sucessores.

Quem usa tal indumentária nos dias comuns pode ainda ficar sujeito a chacota, inveja ou preconceito, como no caso relatado a seguir.

Quando LEONEL BRIZOLA assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro – e por ser um político populista-, transmitiu instruções a seus imediatos no sentido de que as pessoas humildes fossem bem acolhidas nas repartições, o que foi uma medida muito louvável.

Naquela mesma época, eu trabalhava em FUNAS e, em razão do cargo que lá exercia, era obrigado a apresentar-me com paletó e gravata. Eu estava empenhado em resolver um problema de pessoa amiga junto ao Controle Médico do Estado, localizado próximo à Praça Tiradentes, o que me fazia aproveitar o intervalo do almoço para agir, saindo como estava vestido e tomando um táxi para deslocar-me de Botafogo ao Centro rapidamente.

Contudo, a má vontade que eu encontrava no Controle Médico era acintosa e absurda: os funcionários simplesmente fingiam que não me estavam vendo no guichê, e tampouco percebiam os meus chamados. Quando, por fim, me ouviam era para dizer que a enfermeira-chefe, a quem eu deveria dirigir-me, não poderia atender-me naquele momento. Impossibilitado de esperar, ia embora para voltar em um outro dia, quando tudo recomeçaria.

Até que, talvez lá pela minha 5ª ou 6ª tentativa, aquela digníssima servidora consentiu em receber-me; fez-me algumas perguntas pertinentes, dentre elas sobre o endereço do interessado. Quando lhe informei que era na Rua Enfermeira Lúcia Luciano Robaina, ela, teatralmente, disse:
- Não acredito! Uma enfermeira com nome de rua nessa cidade!?
Ao que eu, de pronto, respondi:
- É que, por lá, o valor dá-se a quem o tem! Além de excelente profissional, foi ela uma pessoa muito querida devido à cortesia que dispensava igualmente a todos.

Aquela arrogante chefe não disse mais nada, e recolheu-se visivelmente envergonhada; e o caso foi rapidamente resolvido dali pra frente.

A impressão que me ficou foi a de que a orientação de BRIZOLA foi mal interpretada na ponta do sistema, em que “atender bem aos humildes” implicava necessariamente desdenhar os que assim não parecessem.

O Brasil já não é mais um país subdesenvolvido ao ponto de persistir com esta prática descabida e nociva sob vários aspectos.

O feijão da comadre

Meu saudoso pai, embora tenha sido uma pessoa fundamentalmente mansa, era bastante exigente em relação a certos assuntos domésticos. Assim, por exemplo, e talvez por ter sido um autodidata, ele não admitia que seus filhos faltassem a aulas por motivos fúteis, e achava que tirar a nota máxima em provas ou trabalhos escolares não era mais do que uma obrigação, para quem não tinha outros compromissos.

Minha mãe, que foi uma mulher preparada para os serviços do lar, filha de uma emérita cozinheira, a vó Ambrozina, emerava-se no comando da cozinha a fim de que pudesse servir ao marido refeições de qualidade. Mas os elogios eram muito raros e sempre incompletos da parte dele, atingindo apenas um ou outro prato.

Além de raros, tais elogios nunca eram espontâneos. Quando provocado, valia-se ele de respostas padronizadas para cada situação: se a comida não merecesse elogio algum, caberia um “Come-se!”; ao contrário, se tudo estivesse ótimo, viria então um “Está bom, não está ruim não!”

Certo dia, apareceu em nossa chácara um fornecedor em domicílio oferecendo um feijão novo e de boa procedência, do qual lhe foi adquirida uma grande quantidade; daí, cuidou-se logo de dar àquele produto um tratamento condigno e levá-lo à mesa no almoço do dia seguinte. Confiante, minha mãe acreditava que iria haver uma aprovação imediata daquela vez. Mas vejam o que aconteceu!

Terminada a refeição, não houve comentário algum, o que a levou a indagar:
- Como é Manoel!? gostou do feijão?

Ao que ele respondeu:
- Está bom, não está ruim não!

E prosseguiu:
- Mas feijão bom mesmo é o da comadre Bidoca!

Apesar de tratar-se de uma respeitável senhora e de não ser meu pai homem dado a aventuras, mamãe ficou irritadíssima com o fato, e resolveu tirar as coisas a limpo; afinal, parecia absurda a idéia de que ainda não fosse capaz de fazer um feijão.

Assim foi que se dirigiu à casa de Dª Bidoca, que não ficava longe, e, mesmo não sendo esta sua intenção inicial, resolveu abrir logo o jogo com ela, pois só assim conseguiria justificar aquela matinal e inesperada visita.

Como se tratava de pessoa merecedora de sua maior consideração, Dª Bidoca a recebeu muito bem; contudo, não aceitou colocar-se como sua professora, admitindo apenas confrontar os passos seguidos por ambas para ver se havia alguma diferença significativa no procedimento.

De posse de um feijão novo e de primeira qualidade, verificou-se que: o deixavam de molho de véspera em água fria; o fogão utilizado era de lenha nas duas casas; as panelas eram de ferro e idênticas; nenhuma diferença havia no refogado, à base de gordura de porco, sal e alho; e era tudo igual no cozimento.

Por fim, lembrou-se Dª Bidoca de um pequeno detalhe, e disse:
- Comadre Natalina, não sei se você faz assim, mas eu não ario minha panela de feijão, que é para não tirar todo o fermento.

Estava deslindado o grande mistério: era aquele gostinho ao longe de coisa passada o que dava o sabor tão especial ao feijão.

Para os leitores mais jovens, fica esclarecido que, naquele tempo, ainda não se usavam geladeiras por aqui, de modo que grande parte dos alimentos não consumidos pelas pessoas no mesmo dia era destinada à lavagem dos porcos.

Breve perfil de um consumista

O consumismo é um vício tão pernicioso quanto o jogo, capaz de levar uma família à ruína nos casos mais graves. Na atualidade, parece ter se tornado mais comum, devido à maior exposição dos produtos e às facilidades oferecidas para sua aquisição.

O consumista compra de tudo, compra sempre e mal, na maioria das vezes; compra quando há real necessidade e quando não há necessidade alguma. Raramente volta da rua sem uma sacola ou um embrulho.

Quando uma aquisição se justifica do ponto de vista qualitativo, corre-se ainda o risco de haver um exagero na quantidade, conduzindo a perdas no caso de bens perecíveis, ou a não utilização de produtos adquiridos por variados motivos.

Eis algumas razões para um consumista comprar: porque há necessidade comprovada; porque acha interessante ou barato; para guardar ou presentear; porque está na moda; porque tem pena do vendedor; porque muita gente está comprando; e outras mais.

O consumista é um comprador compulsivo capaz de sorrir para uma vitrine e gargalhar intimamente ante uma promoção ou liquidação, o que o induz a comprar até o que não terá utilidade; se excursiona, gasta a maior parte do tempo visitando lojas e feiras, adquirindo sempre alguma coisa.

Se do sexo feminino, gosta de distribuir muitos presentes ao longo do ano, como por ocasião do Natal, da Páscoa, do Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, e outras tantas comemorações inventadas pelo comércio. E presenteia parentes, amigos, colegas, empregadas, lixeiros, carteiros, cabelereiros e manicures, médicos e, até, dentistas. Contudo, a verdade é que o grande prazer do consumista está no ato de comprar.

É inútil alertá-lo sobre dificuldades financeiras em que possa encontrar-se a família ou qualquer outra instituição a que pertence, pois isto só faz aguçar nele o desejo de comprar; por isto, deve-se evitar, o quanto possível, a revelação para ele sobre a realização de bons negócios, aumento de salário, recebimento de indenizações, etc., ou mesmo a simples perspectiva de que tais coisas possam acontecer.

Fechar torneiras, desligar o gás e a eletricidade quando o consumo é desnecessário, bem como usar com parcimônia e objetividade o telefone, são atitudes que não fazem parte das preocupações de um verdadeiro consumista.

Engana-se quem pensa que este vício é coisa de gente rica.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Energia nuclear: perdição e salvação

No primeiro semestre de 1939, o físico dinamarquês NIELS BOHR chegou à Universidade de Princeton-U.S.A., onde já se encontrava EINSTEIN, levando-lhe uma importante novidade científica ligada à descoberta deste sobre a relação entre massa e a energia de um corpo, expressa pela conhecida fórmula E=mc2: em Berlim, OTTO HAN e FRITZ STRASMAN haviam conseguido bombardear o urânio com neutros, os quais foram cindidos em dois núcleos mais leves, enquanto uma pequena quantidade de massa perdida no processo fora transformada em energia. Isto era, na prática, a confirmação dos estudos teóricos de EINSTEIN sobre o assunto.

Em outra frente, o físico húngaro LEÓ SZILÁRD buscava maneiras de criar uma reação nuclear em cadeia; para ele, a descoberta da fissão do urânio pelos alemães, com liberação de calor, poderia ser utilizada em processo explosivo de grandes proporções. No entanto, EINSTEIN ainda duvidava da possibilidade de dominar-se a energia atômica e de aproveitar a potência implícita naquela fórmula, em que “c” significa a velocidade da luz, ou seja, 300.000 km/s.

Como judeu refugiado em virtude da perseguição dos nazistas, SZILÁRD chegou a Nova York, passando a trabalhar na Universidade de Colúmbia, onde discutiu o assunto com seu colega e compatriota EUGENE WIGNER. Ambos chegaram à conclusão de que deveria ser bloqueado o acesso dos alemães ao urânio do Congo Belga, e lembraram-se de pedir a EINSTEIN que agisse neste sentido junto à Rainha da Bélgica, de quem ele era grande amigo.

Contudo, a coisa evoluiu de maneira diferente: os dois físicos judeus acolhidos pelos U.S.A. acharam que seria mais razoável levar o assunto ao conhecimento do Governo daquele país, para o que, mais uma vez, valeram-se do prestígio de EINSTEIN. Solicitado, o grande cientista escreveu uma carta destinada a ser entregue diretamente ao Presidente ROOSEVELT; após várias tentativas frustradas através de diversos intermediários, ela foi finalmente entregue pelo banqueiro ALEXANDER SACHS, depois de dois meses de espera por uma oportunidade.

Àquela altura, final de agosto de 1939, os acontecimentos belicosos reinantes na Europa fizeram com que a Inglaterra e a França declarassem guerra à Alemanha, dando início à Segunda Grande Guerra Mundial. Embora os U.S.A. permanecessem neutros no conflito, o país começou a rearmar-se e desenvolver novas armas.

Considerando insatisfatório o ritmo dos trabalhos, e tendo conhecimento de que os nazistas procuravam acelerar suas pesquisas no mesmo campo, SZILÁRD impacientou-se e recorreu mais uma vez a EINSTEIN, o qual escreveu outra carta ao Presidente ROOSEVELT, que veio a dar origem ao ultrassecreto Projeto Manhattan, coordenado por OPPENHEIMER e responsável pelos estudos que culminaram com a construção da bomba atômica.

Embora convidado, o extraordinário EINSTEIN não participou pessoalmente dos trabalhos desenvolvidos pelo Projeto, limitando-se a responder a algumas consultas. Ele não se considerava um físico nuclear, e não gostava de envolvimento com autoridades governamentais. Além do mais, era um pacifista convicto, que defendia a criação de uma organização de âmbito mundial, armada, capaz de garantir a paz entre as nações. Do outro lado, muitos militares americanos influentes faziam restrições à sua participação no empreendimento, por não confiarem suficientemente nele.

Não sabemos exatamente quando as primeiras bombas atômicas ficaram prontas; o certo é que só foram usadas contra o Japão quando a guerra na Europa já estava decidida a favor dos aliados. O colossal impacto das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, além de provocar a imediata rendição incondicional do Japão, causou perplexidade no mundo inteiro com seu poder de destruição instantânea e as duradouras consequências das emissões radioativas.

Por sua vez, a Alemanha, provavelmente por estar, naquele momento da história, desfalcada de seus melhores cérebros em razão do expurgo levado a efeito contra os judeus, de forma indiscriminada, não alcançou o mesmo resultado no desenvolvimento da arma, o que teria sido um catástrofe universal. Este fato levou o não menos famoso físico alemão, não judeu, MAX PLANCK a alertar HITLER sobre os danos que tal política estava causando às universidades e aos centros de pesquisas alemães, ao que ele respondeu que preferia recomeçar do zero a conviver com “aquela gente”.

Posteriormente, a nova e poderosa arma foi desenvolvida pelas grandes potências militares da época, Rússia, Inglaterra e França, já tendo chegado à Índia, Israel, Paquistão e China, em versões cada vez mais destruidoras. Além disto, muitos outros países detêm conhecimento científico e tecnológico para produzi-la, e alguns almejam fazê-lo. Em que pesem tentativas tênues entre U.S.A. e a Rússia para reduzirem seus arsenais nucleares, o existente hoje no planeta seria capaz de destruí-lo em frações de segundo.

É natural, por conseguinte, que exista uma grande aversão ao uso da energia nuclear no seio do povo, onde se enxerga predominantemente seu lado negativo; no entanto, é sabido que são importantíssimas suas aplicações na indústria e na Medicina. Tal rejeição tem sido responsável por um grande atraso na implantação de novas usinas nucleares ao redor do mundo, os quais representam hoje a única alternativa economicamente viável de geração de energia elétrica limpa em grande escala, em contraposição às térmicas convencionais, todas altamente poluidoras.

Neste particular, o Brasil detém uma posição privilegiada para expandir seu parque de geração de energia elétrica de base nuclear, por possuir jazidas de urânio, dominar todo o ciclo de beneficiamento e de fabricação do combustível, e estar familiarizado com montagem de nucleoelétricas.

Embora compreensíveis, já não mais se justificam as reações, às vezes violentas, de organizações e autoridades contra o desenvolvimento de tal fonte de energia. De fato, os equipamentos em uso são cada vez mais seguros, e os riscos que poderão oferecer serão sempre pontuais, representados por pequenos vazamentos de radioatividade facilmente controláveis, o mesmo podendo-se dizer em relação aos resíduos do processo, o chamado “lixo atômico”. Eles não têm influência alguma sobre o já popular “efeito estufa”, alimentado fortemente por emissões de gás carbônico que se espalham pela atmosfera às toneladas, de que são campeões as termoelétricas a carvão.

Em alguns países industrializados, como o Japão, a Inglaterra e a China, entre outros, a energia elétrica utilizada é predominantemente de origem térmica, com destaque para as movidas a carvão. Por aqui, embora preponderem amplamente as fontes hidráulicas, usinas térmicas a carvão ou óleo têm sido construídas próximas aos grandes centros de consumo para complementação do sistema elétrico, o que é recomendável para sua estabilidade e segurança operacionais. Mas os aproveitamentos hidroelétricos esgotar-se-ão um dia, e são cada vez mais polêmicos do ponto de vista ambiental.

No curto prazo, vislumbro apenas as seguintes providências técnica e economicamente viáveis para produzir-se energia sem prejuízo do meio ambiente: em primeiro lugar, a construção em larga escala de usinas nucleares, combinada com o uso intensivo de energia elétrica na movimentação de veículos terrestres; e, em complemento, a captação direta de energia solar pelas casas para aquecimento, nas regiões ensolaradas.

As informações históricas contidas na parte inicial deste texto fundamentaram-se na monumental biografia intitulada “EINSTEIN – Sua Vida, Seu Universo”, de autoria de WALTER ISAACSON.