sábado, 6 de março de 2010

Paletó e gravata: até quando?

O calor tem estado escaldante por aqui, todos já perceberam; e agora, além das temperaturas indicadas nos termômetros tradicionais, temos que nos preocupar também com a moderna sensação térmica, segundo a qual a temperatura equivalente à que temos estado expostos chega a atingir 50º C – pelo menos, é o que dizem. É o caso, por exemplo, em que temos efetivamente 40ºC e não corre uma aragem sequer.

Nos grandes centros urbanos, onde a situação parece ser mais grave, os hospitais e postos de saúde vivem superlotados com pessoas vítimas de desidratação e insolação, sobretudo crianças e idosos, tendo ocorrido 32 óbitos na cidade de Santos-SP em apenas 3 dias. Competições esportivas em horários impróprios já vitimaram atletas em vários pontos do País, e muitos devem ter assistido pela televisão, há alguns dias, um repórter desmaiar repentinamente diante da câmera.

Seria desejável, portanto, que fossem tomadas todas as medidas preventivas possíveis no sentido de proporcionar mais conforto aos cidadãos, e não a imposição de costumes arcaicos e inadequados ao nosso clima, como é o caso do uso do paletó e gravata, pois se trata de uma questão de saúde pública.

São dignas de pena as pessoas que, em pleno verão, andam pelas ruas expostas ao sol em traje passeio completo, dentre elas advogados, despachantes e representantes comerciais, bem como autoridades públicas, algumas assemelhando-se a Judas engravatados. Cumpre, a maioria, exigências de repartições públicas, notadamente de tribunais, ou de organizações privadas. O pressuposto é que a dignidade das pessoas está vinculada à sua maneira de vestir-se, o que é um engano: de fato, bandidões de carinha boa e muito bem vestidos circulam por aí praticando contravenções e crimes, até hediondos.

Quando, no século XIX, ingleses, franceses e outros europeus resolveram lotear entre si terras da África para nelas estabelecerem colônias, deixaram para trás suas ceroulas, roupas e meias de lã, sobretudos, chapéus de lebre e boinas, luvas de couro e botas forradas e impermeáveis, e cuidaram logo de confeccionar trajes de algodão e linho, compostos de bermudões, jalecos, chapéus de abas largas e sandálias leves.

No Brasil, o Presidente JÂNIO QUADROS parece ter sido o único governante sensível ao problema, já que instituiu, para seu uso, uma espécie de uniforme funcional que o liberava do paletó e da gravata. Talvez pretendesse ir além, regulamentando a matéria no serviço público; porém renunciou antes, e aquele seu exemplo não foi aproveitado por seus sucessores.

Quem usa tal indumentária nos dias comuns pode ainda ficar sujeito a chacota, inveja ou preconceito, como no caso relatado a seguir.

Quando LEONEL BRIZOLA assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro – e por ser um político populista-, transmitiu instruções a seus imediatos no sentido de que as pessoas humildes fossem bem acolhidas nas repartições, o que foi uma medida muito louvável.

Naquela mesma época, eu trabalhava em FUNAS e, em razão do cargo que lá exercia, era obrigado a apresentar-me com paletó e gravata. Eu estava empenhado em resolver um problema de pessoa amiga junto ao Controle Médico do Estado, localizado próximo à Praça Tiradentes, o que me fazia aproveitar o intervalo do almoço para agir, saindo como estava vestido e tomando um táxi para deslocar-me de Botafogo ao Centro rapidamente.

Contudo, a má vontade que eu encontrava no Controle Médico era acintosa e absurda: os funcionários simplesmente fingiam que não me estavam vendo no guichê, e tampouco percebiam os meus chamados. Quando, por fim, me ouviam era para dizer que a enfermeira-chefe, a quem eu deveria dirigir-me, não poderia atender-me naquele momento. Impossibilitado de esperar, ia embora para voltar em um outro dia, quando tudo recomeçaria.

Até que, talvez lá pela minha 5ª ou 6ª tentativa, aquela digníssima servidora consentiu em receber-me; fez-me algumas perguntas pertinentes, dentre elas sobre o endereço do interessado. Quando lhe informei que era na Rua Enfermeira Lúcia Luciano Robaina, ela, teatralmente, disse:
- Não acredito! Uma enfermeira com nome de rua nessa cidade!?
Ao que eu, de pronto, respondi:
- É que, por lá, o valor dá-se a quem o tem! Além de excelente profissional, foi ela uma pessoa muito querida devido à cortesia que dispensava igualmente a todos.

Aquela arrogante chefe não disse mais nada, e recolheu-se visivelmente envergonhada; e o caso foi rapidamente resolvido dali pra frente.

A impressão que me ficou foi a de que a orientação de BRIZOLA foi mal interpretada na ponta do sistema, em que “atender bem aos humildes” implicava necessariamente desdenhar os que assim não parecessem.

O Brasil já não é mais um país subdesenvolvido ao ponto de persistir com esta prática descabida e nociva sob vários aspectos.

O feijão da comadre

Meu saudoso pai, embora tenha sido uma pessoa fundamentalmente mansa, era bastante exigente em relação a certos assuntos domésticos. Assim, por exemplo, e talvez por ter sido um autodidata, ele não admitia que seus filhos faltassem a aulas por motivos fúteis, e achava que tirar a nota máxima em provas ou trabalhos escolares não era mais do que uma obrigação, para quem não tinha outros compromissos.

Minha mãe, que foi uma mulher preparada para os serviços do lar, filha de uma emérita cozinheira, a vó Ambrozina, emerava-se no comando da cozinha a fim de que pudesse servir ao marido refeições de qualidade. Mas os elogios eram muito raros e sempre incompletos da parte dele, atingindo apenas um ou outro prato.

Além de raros, tais elogios nunca eram espontâneos. Quando provocado, valia-se ele de respostas padronizadas para cada situação: se a comida não merecesse elogio algum, caberia um “Come-se!”; ao contrário, se tudo estivesse ótimo, viria então um “Está bom, não está ruim não!”

Certo dia, apareceu em nossa chácara um fornecedor em domicílio oferecendo um feijão novo e de boa procedência, do qual lhe foi adquirida uma grande quantidade; daí, cuidou-se logo de dar àquele produto um tratamento condigno e levá-lo à mesa no almoço do dia seguinte. Confiante, minha mãe acreditava que iria haver uma aprovação imediata daquela vez. Mas vejam o que aconteceu!

Terminada a refeição, não houve comentário algum, o que a levou a indagar:
- Como é Manoel!? gostou do feijão?

Ao que ele respondeu:
- Está bom, não está ruim não!

E prosseguiu:
- Mas feijão bom mesmo é o da comadre Bidoca!

Apesar de tratar-se de uma respeitável senhora e de não ser meu pai homem dado a aventuras, mamãe ficou irritadíssima com o fato, e resolveu tirar as coisas a limpo; afinal, parecia absurda a idéia de que ainda não fosse capaz de fazer um feijão.

Assim foi que se dirigiu à casa de Dª Bidoca, que não ficava longe, e, mesmo não sendo esta sua intenção inicial, resolveu abrir logo o jogo com ela, pois só assim conseguiria justificar aquela matinal e inesperada visita.

Como se tratava de pessoa merecedora de sua maior consideração, Dª Bidoca a recebeu muito bem; contudo, não aceitou colocar-se como sua professora, admitindo apenas confrontar os passos seguidos por ambas para ver se havia alguma diferença significativa no procedimento.

De posse de um feijão novo e de primeira qualidade, verificou-se que: o deixavam de molho de véspera em água fria; o fogão utilizado era de lenha nas duas casas; as panelas eram de ferro e idênticas; nenhuma diferença havia no refogado, à base de gordura de porco, sal e alho; e era tudo igual no cozimento.

Por fim, lembrou-se Dª Bidoca de um pequeno detalhe, e disse:
- Comadre Natalina, não sei se você faz assim, mas eu não ario minha panela de feijão, que é para não tirar todo o fermento.

Estava deslindado o grande mistério: era aquele gostinho ao longe de coisa passada o que dava o sabor tão especial ao feijão.

Para os leitores mais jovens, fica esclarecido que, naquele tempo, ainda não se usavam geladeiras por aqui, de modo que grande parte dos alimentos não consumidos pelas pessoas no mesmo dia era destinada à lavagem dos porcos.

Breve perfil de um consumista

O consumismo é um vício tão pernicioso quanto o jogo, capaz de levar uma família à ruína nos casos mais graves. Na atualidade, parece ter se tornado mais comum, devido à maior exposição dos produtos e às facilidades oferecidas para sua aquisição.

O consumista compra de tudo, compra sempre e mal, na maioria das vezes; compra quando há real necessidade e quando não há necessidade alguma. Raramente volta da rua sem uma sacola ou um embrulho.

Quando uma aquisição se justifica do ponto de vista qualitativo, corre-se ainda o risco de haver um exagero na quantidade, conduzindo a perdas no caso de bens perecíveis, ou a não utilização de produtos adquiridos por variados motivos.

Eis algumas razões para um consumista comprar: porque há necessidade comprovada; porque acha interessante ou barato; para guardar ou presentear; porque está na moda; porque tem pena do vendedor; porque muita gente está comprando; e outras mais.

O consumista é um comprador compulsivo capaz de sorrir para uma vitrine e gargalhar intimamente ante uma promoção ou liquidação, o que o induz a comprar até o que não terá utilidade; se excursiona, gasta a maior parte do tempo visitando lojas e feiras, adquirindo sempre alguma coisa.

Se do sexo feminino, gosta de distribuir muitos presentes ao longo do ano, como por ocasião do Natal, da Páscoa, do Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, e outras tantas comemorações inventadas pelo comércio. E presenteia parentes, amigos, colegas, empregadas, lixeiros, carteiros, cabelereiros e manicures, médicos e, até, dentistas. Contudo, a verdade é que o grande prazer do consumista está no ato de comprar.

É inútil alertá-lo sobre dificuldades financeiras em que possa encontrar-se a família ou qualquer outra instituição a que pertence, pois isto só faz aguçar nele o desejo de comprar; por isto, deve-se evitar, o quanto possível, a revelação para ele sobre a realização de bons negócios, aumento de salário, recebimento de indenizações, etc., ou mesmo a simples perspectiva de que tais coisas possam acontecer.

Fechar torneiras, desligar o gás e a eletricidade quando o consumo é desnecessário, bem como usar com parcimônia e objetividade o telefone, são atitudes que não fazem parte das preocupações de um verdadeiro consumista.

Engana-se quem pensa que este vício é coisa de gente rica.