domingo, 10 de maio de 2009

Os grandes carnavais de Cambuci

Ao aproximar-se o carnaval de 1974, um grupo de pessoas de Cambuci resolveu organizar um bloco, dando-lhe o nome de PICARDIA, logo despertando o desejo de outros de competir com ele, surgindo assim o TAMOS AÍ. Dizia-se que o primeiro nascera vinculado a uma elite local, enquanto o segundo congregava classes mais populares. Esta interpretação dos fatos e o início imediato de uma grande rivalidade entre eles estão retratados nos primeiros sambas-enredo.

Seguiu-se um período em que monumentais desfiles carnavalescos foram realizados em Cambuci, desproporcionais ao tamanho e aos recursos da cidade. Eles permaneceram até 1993 com a participação das duas agremiações, e até 1994 com o TAMOS AÍ apenas, quando apresentou o enredo “Formas e Cores”.

Havia uma ânsia constante de ambas as partes de superarem-se a cada ano, fazendo com que tivéssemos, na Praça da Bandeira e suas adjacências, verdadeira réplicas do que acontecia no Rio neste particular, guardadas as devidas proporções; na verdade, as diferenças existentes atingiam mais os aspectos quantitativos. Diversos outros animados blocos, mas sem o mesmo requinte, animavam a festa naquela época: K-BROXINHAS DO VALTAIR, LITRÃO, QUEM QUER VINHO VEM, VIRGENS e, ainda, o folclórico BOI PINTADINHO. As principais só desfilavam domingo e terça-feira.

Entre 200 e 300 participantes esmeravam-se para exibir suas fantasias (algumas, ricos destaques), 3 carros alegóricos, a tradicional ala das baianas e outras compatíveis com o enredo, mestres-sala e porta-bandeiras, grande bateria, cantores, passistas etc.; era uma excelente oportunidade de conhecer-se o trabalho dos artistas da terra, bem como a graça e a beleza de mulheres de todas as idades. Cumpriam-se plenamente os rituais próprios também ao longo do ano.

Após os desfiles, ambos poderiam considerar-se vencedores porque não havia julgamento oficial, medida esta de muito bom senso naquelas circunstâncias.

Havia um intenso afluxo de público, compreendendo a população fixa da cidade, cambucienses residentes fora, moradores em municípios vizinhos e forasteiros sem ligação alguma com o lugar, que vinham de longe atraídos pelo evento. Apesar disto, os aplausos sempre me pareceram discretos e pontuais.

A cada ano, as agremiações tinham que trabalhar com afinco para fazer seu carnaval, tamanhas eram as dificuldades encontradas pelo caminho; mesmo sendo preponderantemente amadora a mão-de-obra empregada, as despesas assumiam valores consideráveis, em confronto com a subvenção proporcionada pela Prefeitura. Para suprir suas necessidades, promoções diversas tinham que ser programadas durante o ano, e listas de colaboradores especiais serem organizadas. Em geral, na sequência, sobravam dívidas a serem honradas pelos responsáveis, os quais acabaram cansando-se e optando pelo encerramento de tais atividades, ao invés de baixarem o nível delas. O TAMOS AÍ, que ainda existe de fato e de direito como associação, com o nome “Grêmio Recreativo Escola de Samba Tamos Aí”, possui um valioso patrimônio no centro de Cambuci, constituído de quadra para ensaios e festas, e galpão para serviços; lamentavelmente, toda esta infraestrutura não vem cumprindo a finalidade para a qual foi criada.

Vê-se, por conseguinte, que a atuação do PICARDIA e TAMOS AÍ nos carnavais tinham consequências ao longo do ano devido à promoção de eventos, que se tornaram conhecidos e famosos.

Sabedores de meu envolvimento com o samba através do TAMOS AÍ, algumas pessoas já me questionaram sobre a possibilidade de voltarmos a proporcionar ao público aqueles grandes carnavais de outrora. Eu, particularmente, sou muito pessimista quanto a isto, pelos seguintes motivos: permanecem a carência de recursos e de outros estímulos; aqueles devotados líderes, após decorridos 15 anos, já não existem ou, de um modo geral, faltam-lhes condições físicas ou psicológicas para enfrentar novos desafios; e os jovens de hoje, em matéria de diversão não se interessam por nada que implique muita organização e disciplina, preferindo brincadeiras informais como blocos de sujo.

Eu imaginava que, passado o carnaval e por um bom tempo, toda a cidade ficasse comentando os desfiles, pois assunto não faltava para isto; mas eu não podia permanecer nela para ver, em virtude de meus compromissos profissionais. Certa feita, resolvi ficar para a feijoada do TAMOS AÍ, e prolongar minha estada pelo resto da semana; naquela ocasião, observei nas ruas que ninguém falava nada sobre o carnaval espontaneamente. Era como se nada tivesse acontecido ali de especial, como se os carnavalescos, artistas e figurantes não houvessem feito nada de mais do que suas obrigações.

Mas, mesmo assim, ficaria muito feliz se tudo aquilo voltasse a acontecer, e, de minha parte, espero estar pronto para fazer aquilo que então fazia: sambas-enredo. Fui honrado com a escolha de duas músicas minhas pelo TAMOS AÍ: a primeira, lembrada até hoje por muitas pessoas, foi apresentado em 1976 com o título “Exaltação a Cambuci”, vencedor em acirrada disputa; a segunda, do carnaval de 1994, levava o título “Formas e Cores”, em que compus também o enredo. E, por falta de oportunidade, permanece inédito o meu “Travessia de Uma Raça”, com enredo e tudo planejado para um desfile. Que pena!

Blocos vestidos com camisetas-regata podem ser divertidos, mas jamais foram nem serão representativos dos velhos PICARDIA E TAMOS AÍ, que atuaram durante 20 longos anos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito desta explanacao do senhor Raphael, pois sou de familia Cambuciense, onde se concentrava o Picardia, sou neto da saudosa dona Jurinha.
Gostei do que li, pois sou um enterno apaixonado por Cambuci, uma cidade maravilhosa, onde todos se conhecem e e uma pena que valores daquela epoca se percam e estou se perdendo ao longo do tempo e ninguem faz nada, nem a populacao nem seus governantes. Isso muito me entristesse, porem nao diminui o carinho e o amor que tenho por esta cidade, onde duas pessoas muito importantes na minha vida passaram seus dias, me refiro a Antonio Vieira Homem, o Dico, e a Juracy Sepulveda Vieira, a dona Jurinha, meus avos.
Entao termino este comentario fazendo suas as minhas palavras e aproveito a oportunidade para ressaltar a importancia de alguns valores que antigamente eram levados a serio e que com o passar dos anos, simplesmente, caem no esquecimento.
Um grande abraco.
Antonio CArlos Vieira Porto.

Teca Freitas disse...

Blocos vestidos com camisetas-regata podem ser divertidos, mas jamais foram nem serão representativos dos velhos PICARDIA E TAMOS AÍ, que atuaram durante 20 longos anos.
Com certeza não caro Sr. Rafael, tbém tive o privilégio de participar desses momentos maravilhosos em Cambuci, no PICARDIA.Bons tempos!Um grande abraço, Teca Sardoux