domingo, 10 de maio de 2009

Xixi na rua

A cobertura jornalística levada a efeito nas ruas do Rio, quando do último carnaval, deu um destaque incomum, inclusive com ilustrações fotográficas, ao fato de muitos foliões terem urinado em locais impróprios. Tais ações foram consideradas absurdas e, até, obscenas, chegando a dar margem a uma detenção.

Os carnavais de rua no Rio ganharam novo impulso nos últimos tempos, devido principalmente ao fato de terem os desfiles das escolas-de-samba se transformado em festas para turistas e celebridades; custam caro e as pessoas só têm uma participação ativa quando inseridas no espetáculo. São numerosos os blocos carnavalescos, os quais se caracterizam por sua informalidade e animação, movimentando dezenas de milhares de pessoas de várias classes sociais, na maioria jovens, destacando-se o “Cordão da Bola Preta”, a “Banda de Ipanema”, o “Cacique de Ramos”, o “Bafo da Onça”, o “Sovaco de Cristo”, o “Boi Tatá” e o “Simpatia é Quase Amor”.

Cada apresentação de um grande bloco dura cerca de 4 horas, às quais deve ser adicionado o tempo de ida e de volta do participante a sua residência para ter-se uma idéia de sua premência de satisfazer tal necessidade fisiológica, sobretudo quando se dança e pula sob forte calor e com elevado consumo de cerveja e outros líquidos.

Por outro lado, é conhecida a carência de equipamento urbano nas grandes cidades para evitar ou minorar esse tipo de problema, o qual se agrava nas áreas distantes dos parques e das praias nos dias em que o comércio e as repartições públicas encontram-se fechadas. Durante o carnaval, nem os bares abrem suas portas nos locais de grande confusão, sendo os alimentos e as bebidas vendidas por ambulantes. Nos dias úteis, embora seja considerável o número de transeuntes, muitos deles têm uma base qualquer nas proximidades ou afastam-se de casa por um período menor.

As autoridades não têm como proibir tal manifestação do povo, que praticamente não causa ônus financeiros; na verdade, basta que sejam delimitadas as áreas possíveis, reforçada a segurança e modificado o tráfego. A instalação de banheiros químicos, que é um recurso modernamente utilizado em algumas situações, é insuficiente para atender demanda com tal ordem de grandeza.

Um cálculo relativamente simples permite-nos estimar o número de tais banheiros que seriam necessários para satisfazer plenamente as necessidades, quando se lida com multidões. Isto será demonstrado nos tópicos subsequentes.

Quanto à capacidade de cada equipamento, supondo que haja um fluxo contínuo de usuários e que o tempo médio unitário de uso seja de 3 minutos, seriam atendidas 20 pessoas diferentes por hora, que passaria para 80 se consideradas as 4 horas de um desfile, e cada uma fazendo uso dele apenas uma vez.

O “Cordão da Bola Preta” arrasta uma quantidade exorbitante de pessoas pelas ruas centrais do Rio, cuja determinação precisa é impossível; no entanto, os jornais têm arriscado alguns números que me parecem exagerados, como 800 mil informado quando do último carnaval. No ano anterior, falou-se de 300 e 400 mil.

Achei prudente apurar melhor esta questão com base em uma foto aérea que mostra o bloco tomando completamente a Av. Rio Branco, no trecho que vai da Cinelândia à Av. Presidente Vargas. Fazendo uma medição da largura e do comprimento utilizados da citada via, os resultados encontrados foram 37 e 1.380 m respectivamente. Tem-se, portanto, que a área total abrangida foi de 51.060 m2 e, se for adotado o pressuposto de que a densidade média de ocupação é de 2 pessoas/m2, chegar-se-á a 102 mil participantes como número final, que será aproximado aqui para 100 mil por motivo de ordem prática.

Pode-se agora, com uma simples divisão, calcular o número de banheiros químicos que seriam necessários: 100 mil / 80 = 1.250. Se justapostos lado a lado, com 1,20 m de largura externa cada um, terse-ia 1,5 km de extensão total. Seria isto absolutamente inviável para a administração pública municipal, pois o custo/benefício seria altíssimo e não haveria espaço disponível para sua instalação, a qual teria que ser ainda muito bem administrada durante sua operacionalização. Seria igualmente inviável a implantação de sanitários permanentes.

Na verdade, o número equivalente de pessoas poderá ser superior ao acima referido porque se considerou uma distribuição uniforme de usuários ao longo do tempo, e que cada um fizesse uso do equipamento apenas uma vez, hipóteses pouco prováveis; quanto à primeira delas, sabe-se que a demanda tenderá a aumentar na parte final do período e, na segunda, que a maioria das pessoas sentiria tal necessidade mais vezes. Seja com 100 mil ou mais, a situação continuaria muito difícil também com 75, 50 ou 25 mil foliões.

A solução para este problema já existe, e é a mesma adotada para todo tipo de sujeira: terminada a festa, entra em ação a operação limpeza. Aí, se cada incomodado colaborar cuidando da frente de seu prédio, o trabalho será mais fácil e rápido.

A propósito da arguição de obscenidade, muito mais grave é o fato de estações do metrô não possuírem instalações sanitárias para seus clientes, e ninguém se insurgir contra isto.

Aliás, é sempre difícil prover infraestrutura de serviços adequada quando estão envolvidas demandas muito grandes de curta duração. Veja-se, por exemplo, o que acontece nas conhecidas corridas para as praias no verão: cada um sabe com antecedência que ficará engarrafado, mas não desiste da viagem. No íntimo, todos têm consciência que não seria razoável exigir-se a duplicação ou triplicação de uma via de acesso só para servi-los por alguns momentos.

Nos dois casos, tudo pode ser enfrentado com um pouco de paciência e tolerância.

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