domingo, 10 de maio de 2009

"Carron" e mulher nova

Na década de 70, foi lançado pela GM um modelo novo de automóvel denominado “Opala”, que fez muito sucesso entre os de procedência nacional; era grande, bonito e muito confortável. Eu mesmo possuí um por muitos anos. Era um carro imponente o meu cupê bege ipanema.

Pouco tempo depois de nosso casamento, eu e minha mulher resolvemos viajar para Cambuci, onde pretendíamos descansar e visitar parentes e amigos, os quais não eram poucos por sermos naturais da mesma cidade e numerosas ambas as famílias.

Naquela ocasião, um padre novo estava à frente da paróquia local, vindo quase do outro lado do mundo, de um país exótico que tem o inglês como principal língua oficial. Tenho conhecimento de que teve algumas dificuldades iniciais por ser ele um sacerdote muito zeloso de sua missão pastoral e, por isto, exigente por demais com seus paroquianos.

Comunicava-se bem em português, com um leve sotaque e dificuldades comuns na pronúncia de alguns fonemas. Deixou incontáveis amigos quando foi embora, os quais se correspondem com ele até hoje; retorna à cidade sempre que pode e é muito bem recebido, em reconhecimento a seu valor.

Andava eu tranqüilo pelas ruas e praças de minha terra, sozinho ou acompanhado, a pé ou de carro, sem saber que estava sendo atentamente observado e vigiado por um estrangeiro que não me conhecia. Sua curiosidade era tamanha que o levou a fazer perguntas a pessoas de sua confiança, aquelas que costumavam frequentar a sacristia, procurando identificar-me.

A tarefa não foi nada fácil para seus interlocutores devido à insuficiência de suas informações; de fato, ele fixou-se apenas na imponência do carro e em minha idade avançada, em confronto com a da acompanhante. Perguntava ele inicialmente, sem sucesso:

- Quem é aquele que anda por aí em um “carron” amarelo?

Ele não sabia qual o modelo do automóvel e, além disto, bege não é amarelo. Mas, insistia:

- Quem é aquele que anda por aí em um “carron” com mulher nova?

Tanto fez que acabou descobrindo o grande e importante enigma: o homem era o Dr. RAPHAEL, engenheiro, de família daqui, irmão de Dª HÊLZA, Dª ZEZÉ e Dª DUCILA; a mulher era IZABEL, professora, de família tradicional do município, gente finíssima. Eles são casados e moram no Rio.

Esta breve história mostra que a curiosidade é comum ao ser humano em toda parte do planeta, mesmo sendo grande a distância entre os países e as diferenças culturais, independentemente das profissões. O que não fiquei sabendo é se o esclarecimento do caso foi motivo de satisfação ou decepção.

Já no final de nossas férias, voltava eu de Itaocara quando começou a chover ao aproximar-me da ponte da Boia, e lá estava o padre à beira da estrada como que aguardando uma condução; parei e convidei-o a embarcar. Um pouco assustado, ele entrou e, após alguns instantes, disse:

- “Carrona” boa essa!

Confirmado o seu destino e verificado que não era grande a pressa de chegar, resolvi dar um bordejo pela cidade; afinal, era uma oportunidade de tornar-me conhecido daquela autoridade eclesiástica. Ao término, expressou grande agradecimento, mas saiu meio ressabiado...

Mas, naquele momento, se eu tivesse a meu lado aquela mulher nova, a tendência seria ele gramar na chuva e penitenciar-se, talvez por muito tempo.

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