sábado, 23 de maio de 2009

Um Concurso de Miss

Houve uma época – a segunda metade da década de 60 – em que eu, por dever de ofício, mantinha um estreito contato com vários jornalistas de Niterói, tendo sido mesmo amigo de alguns deles.

Eu residia bem no centro da cidade e, à noite, comparecia com certa frequência à calçada próxima ao então Café Santa Cruz, e a outro que existia na esquina da Rua da Conceição com a Praça Arariboia, os quais eram as grandes referências para ponto de encontro e batepapo entre amigos.

Foi lá que, numa sexta-feira, fui abordado e convidado por um grupo deles, que incluía um cronista social, para uma festa no FLUMINENSINHO, clube que ficava na Rua Visconde do Rio Branco, nas imediações do Colégio Plínio Leite. Todos eles estavam engravatados e eu muito à vontade, com uma calça de brim e uma camisa de malha com mangas curtas; por este motivo, relutei muito em aceitar o gentil convite, mas a insistência foi tanta que não resisti, até porque eu não estava realmente fazendo nada de mais agradável naquele momento. Por fim, entrei no carro e rumamos para o clube.

Éramos quatro, e fomos todos muito bem recebidos quando chegamos a nosso destino, sendo logo encaminhados para uma grande mesa bem localizada no salão e ornamentada com muito bom gosto. Uma excepcional boca-livre estava garantida.

Rolava uma festa de arromba: baile com grande orquestra; ambiente todo decorado; e pessoas muito bem vestidas, mulheres de longo, homens com passeio completo e, até, traje a rigor. Estes fatos deixaram-me bastante constrangido.

Lá pelas tantas, um animador profissional, daqueles com gravata borboleta, interrompeu o baile para anunciar que, dentro de minutos, seria dado início ao desfile para a escolha da “Miss Turismo Estado do Rio”, e que, naquele momento, estava sendo montada a Comissão Julgadora, a qual seria de altíssimo nível, acima de qualquer suspeita. Só então fiquei sabendo o motivo daquela festa.

Não tardou muito, e lá estava de novo o animador para a convocação dos jurados:
- Convidamos a fazer parte da Mesa, para integrar a comissão, o Dr. FULANO DE TAL, presidente da EMBRATUR;
- Convidamos, também, para integrar a comissão, o Dr. BELTRANO, presidente da FLUMITUR; - Convidamos o Assessor de Comunicação Social da Secretaria de Estado de Turismo, DR. SICRANO, para fazer parte da comissão;
- Convidamos a Srta. FULANA, Miss Turismo do ano passado e ex-Miss Maricá, para compor a comissão.

Mais outras duas pessoas foram chamadas com o mesmo objetivo, todas bem intituladas e apresentando-se elegantemente vestidas. E, por último, foi a vez da chamada daquele designado para a presidência:
- Convidamos para presidir a comissão o DR. RAPHAEL GUERRANTE GOMES, Diretor da “Centrais Elétricas Fluminenses.”

Surpreso, não atendi ao primeiro chamado; contudo, insistiu o animador:
- Convidamos o DR RAPHAEL GUERRANTE GOMES, aqui presente, a fazer parte da comissão, assumindo sua presidência.

Empurrado pelos “amigos” jornalistas, levantei-me e atravessei o salão com minhas mangas curtas.

Apesar de tudo, fui muito bem acolhido pelos colegas da Mesa, em especial pela ex-Miss, de quem eu era um velho conhecido do bairro do Ingá.

Passadas as devidas instruções sobre o concurso aos membros da comissão, foi-nos concedido um breve tempo para que nos organizássemos. Rapidamente, montei as planilhas individuais cobrindo as três fases do concurso, bem como uma planilha de totalização. Por considerar que a eleita provavelmente não iria exibir-se de maiô em missões oficiais, fiz a seguinte proposta ao grupo:
a) o julgamento seria preponderantemente fundamentado no desfile em traje de noite;
b) o desfile com maiô só serviria para corrigir graves distorções;
c) o julgamento já deveria estar concluído quando do desfile conjunto das candidatas.

Todos acharam a idéia genial, e assim seria feito. O animador foi avisado de que a comissão estava preparada, podendo ser dado início ao concurso.

A primeira a desfilar foi espetacular, por ser bonita, simpática e apresentar-se muito bem, tendo sido muito aplaudida. Quando foi anunciada a segunda, o clube veio abaixo; uma claque agressiva gritava freneticamente:
- É essa! É essa! Já ganhou!

A moça, que já não era muito instrumentada para o posto, desconcentrou-se e fez um péssimo desfile.

Neste momento, a ex-Miss da comissão que eu, sabiamente, havia escolhido para secretária, sussurrou em meu ouvido esquerdo:
- Raphael, isso vai dar babado!

No pequeno intervalo até a próxima fase, passamos aos demais membros, com a máxima discrição, que a situação estava perigosa para nós, uma vez que a segunda candidata, por estar representando o anfitrião e não reunir condições para ganhar, deveria ficar em 2º lugar, como princesa. Era o mínimo que poderíamos fazer para salvar o concurso e, quem sabe?, nossa pele. A turma era muito cordata, e aderiu também a esta ousada proposta.

Não houve problemas, pois todos repetiram as notas da 1ª fase e colocaram a moça do clube em 2º lugar; assim, foi-nos possível assistir ao desfile conjunto das candidatas com o resultado já fechado.

Ultrapassadas todas as etapas, o animador comunicou ao público que seriam concedidos 15 minutos para que a comissão indicasse as vencedoras; enquanto isso, continuaria o baile. Na sequência, dirigindo-se a mim para repetir a mensagem, eu entreguei-lhe os mapas de julgamento, sugerindo-lhe que mantivesse o prazo para a divulgação em proveito do suspense; ele, por sua vez, mostrou-se admirado com nossa agilidade.

Retornei então à base disposto a dizer aos amigos jornalistas que minha missão estava cumprida e que eu iria embora, o que fiz efetivamente. Eles insistiram para que eu ficasse mais um pouco e, por fim, que ao menos dissesse-lhes, como furo, quem havia sido a vencedora. Minha resposta foi curta e grossa:
- Furo é o cacete!

E caí fora com a secretária...

Nenhum comentário: