Apoiado no grande avanço proporcionado pela Escola de Sagres na técnica de navegação, e já cansado de utilizar intermediários em seu comércio com o Oriente, decidiu Portugal lançar-se no então ousado projeto de descobrir um caminho marítimo para as Índias, o que foi conseguido por Vasco da Gama em 1498.
Pode-se imaginar a surpresa daqueles intrépidos marinheiros ao defrontarem-se com tanta exuberância e exotismo, após longa e perigosa jornada por mares desconhecidos e “nunca dantes navegados”, como dizia Camões.
Hoje em dia, basta um toque em um equipamento eletrônico para que se possa ver, ouvir e comunicar-se com qualquer parte do mundo instantaneamente. Negócios podem ser feitos, monumentos e museus visitados, acervo de bibliotecas consultados, espetáculos assistidos, inclusive competições esportivas e importantes cerimônias; isto para falar-se apenas de coisas agradáveis.
Encontra-se em cartaz pela Rede Globo a novela “Caminho das Índias”, que tem suscitado muitos comentários, especialmente no que diz respeito às sequências passadas naquele país; e, nos cinemas, o filme ganhador de vários “Oscars” intitulado “Quem Quer Ser um Milionário?”, que também retrata coisas de lá.
Quem assistiu ao capítulo de abertura da referida novela ficou certamente extasiado com sua beleza plástica, em que imponentes monumentos serviam de pano de fundo ao forte colorido das roupas, à harmonia da dança com seus elefantes amestrados, tudo ao som de uma música tipicamente árabe, sobretudo pela percussão pesada e rica. Entra, depois, na intimidade de duas famílias de comerciantes abastados, do ramo de tecidos e dos perfumes, ambos da casta dos vaishas, e suas interações com um despresível dalit e uma firanghi de costumes inaceitáveis, por ser estrangeira.
Quanto à película cinematográfica, uma linda história de amor é conduzida através de um programa televisivo que oferece grandes prêmios aos vencedores, e que, ao mesmo tempo, mostra a miséria e a violência reinantes no submundo do crime.
A novela e o filme têm em comum a revelação de uma inaceitável desordem urbana, tratando-se de um país considerado emergente, tal como o Brasil, a Rússia e a China, já altamente desenvolvido em vários setores. De fato, observa-se uma tremenda confusão no trânsito em importantes centros urbanos: não há mão nem contramão; inexistem sinais de controle; pessoas circulam juntamente com vacas, camelos, elefantes, caminhões, automóveis e os típicos tuc-tucs.
A sociedade e os costumes indianos são provavelmente os mais complexos do mundo, devido à multiplicidade de etnias, línguas, crenças, tradições e superstições; são 16 as línguas oficiais, havendo ainda dezenas de outras e incontáveis dialetos. Tal diversidade é decorrente das invasões sofridas pelo país ao longo de sua história, onde um dia prosperou a mais antiga das civilizações conhecidas, a dos Magas, que data de 2500 a.C.. É um caldeirão cultural.
Entre 1700 e 1200 a.C. os árias invadiram a região e nela introduziram um odioso sistema social fundado em castas, a saber: brâmanes, dos sacerdotes, professores e intelectuais; xátrias, dos militares, guerreiros e administradores; vaishas, dos comerciantes, fazendeiros e geradores de riquezas em geral ; sudras dos trabalhadores braçais e serviçais; parias, dos desocupados e sem profissão definida; e dalits ou intocáveis, reservada aos que, por motivos graves, tenham sido expulsos de suas castas, assim permanecendo até a 3ª geração em limpeza de ruas e de fossas, e serviços em crematórios.
No fim do século I a.C., houve a invasão dos indo-citas vindos da Pérsia oriental; na sequência, ocorreram invasões alternadas de persas e gregos. Os hunos, nômades bárbaros, lá estiveram no século VI, ocasião em que duas novas religiões surgiram ao lado do hinduísmo: o budismo e o jainismo. Os turcos lá apareceram no século VIII.
A invasão de maometanos no século X foi a que exerceu maior influência: cerca de ¼ da população foi convertida à força ao islamismo, religião que resguarda, mas discrimina violentamente as mulheres; podendo os homens possuir várias esposas, os invasores passaram a co-optar as jovens viúvas hindus. Este fato deu origem a um costume cruel entre os nativos, que era o de imolarem-se as viúvas nas piras funerárias de seus maridos. Exerceram eles grande influência na música.
No fim do século XV, lá aportaram os portugueses com o objetivo de estabelecer uma linha regular de comércio de especiarias, utilizando o caminho marítimo. Com eles seguiam missionários jesuítas e dominicanos, os quais se incumbiam de divulgar o cristianismo, como era de praxe.
No século XVII, os mongóis dominaram a Índia, implantando no norte daquele país importantes monumentos de arquitetura, compreendendo palácios, mesquitas com seus miraretes, e mausuléus, onde se destaca o Tajd Mahall, localizado na cidade de Agra, que aparece na abertura da novela.
Com a decadência dos mongóis, a península começou a ser disputada por franceses e ingleses no século XVIII; estes prevaleceram, e sua dominação durou cerca de 200 anos.
Em que pese seu nível de desenvolvimento muito mais elevado, os ingleses não se preocuparam muito em interferir nos costumes locais, cuja diversidade deveria favorecer sua dominação, exceto quanto à imposição do idioma inglês e a implantação de ferrovias, que asseguravam a integração do território.
Por fim, surgiu a extraordinária figura de GANDHI, líder espiritual e político que iniciou a luta pela independência da Índia em 1920, usando a estratégia da não-violência e da desobediência civil, cujos mentores teóricos foram RUSKIN, THOREAU e TOLSTOI, processo só concluído em 1947, mas sem o sacrifício de vidas humanas.
O que nem todos sabem é que GANDHI esforçou-se igualmente em prol da justiça social e contra a desordem urbana, em especial no que tange ao saneamento, logrando a aprovação de leis como a que proibiu o casamento de crianças e a que melhorou a quota das castas inferiores na representação política. A situação dos parias e dos dalits o incomodava ao extremo. Mas, só com o advento da constituição do país, após sua independência, foi abolido o regime de castas. As leis indianas atuais proibem qualquer tipo de discriminação motivada por casta, raça ou credo. São do famoso líder os textos abaixo:
“Não há nada mais tenaz do que um costume que se herda com um preconceito engastado no inconsciente.”
“Um dos grandes defeitos da Índia é a negligência em matéria de higiene pública. Os hindus observam um asseio meticuloso na cozinha e em suas pessoas, mas são negligentes quanto às ruas e aos quintais.”
De fato, o tão decantado Rio Ganges não passa de uma latrina há muito tempo, um cemitério ambulante repleto de cadáveres e animais mortos.
O povo, que não ouviu os apelos de GANDHI em oposição às práticas preconceituosas e costumes frívolos, não foi capaz de resistir ao processo de globalização em todos os campos, não sendo possível admitir-se que sua juventude tenha estado desconectada de tudo o que se passa ao redor do mundo, e ainda se submeta a modos de vida ultrapassados.
Sem dúvida, a autora GLÓRIA PERES resgata costumes antigos para tornar sua obra mais atraente, com seus rituais, seus “sáris”, “bindis” e jóias caras usadas cotidianamente, e não apenas em ocasiões especiais, e mostra cenas chocantes de preconceito explícito em conflito com a legislação indiana.
Quanto ao pagamento de dote e escolha dos noivos para seus filhos, trata-se de coisa já adotada aqui até o século XIX. Mas, ainda hoje, existem muitas senhoras que gostariam de poder escolher seus futuros genros e noras, convencidas de que o fariam melhor do que fizeram para si mesmas.
Pode-se imaginar a surpresa daqueles intrépidos marinheiros ao defrontarem-se com tanta exuberância e exotismo, após longa e perigosa jornada por mares desconhecidos e “nunca dantes navegados”, como dizia Camões.
Hoje em dia, basta um toque em um equipamento eletrônico para que se possa ver, ouvir e comunicar-se com qualquer parte do mundo instantaneamente. Negócios podem ser feitos, monumentos e museus visitados, acervo de bibliotecas consultados, espetáculos assistidos, inclusive competições esportivas e importantes cerimônias; isto para falar-se apenas de coisas agradáveis.
Encontra-se em cartaz pela Rede Globo a novela “Caminho das Índias”, que tem suscitado muitos comentários, especialmente no que diz respeito às sequências passadas naquele país; e, nos cinemas, o filme ganhador de vários “Oscars” intitulado “Quem Quer Ser um Milionário?”, que também retrata coisas de lá.
Quem assistiu ao capítulo de abertura da referida novela ficou certamente extasiado com sua beleza plástica, em que imponentes monumentos serviam de pano de fundo ao forte colorido das roupas, à harmonia da dança com seus elefantes amestrados, tudo ao som de uma música tipicamente árabe, sobretudo pela percussão pesada e rica. Entra, depois, na intimidade de duas famílias de comerciantes abastados, do ramo de tecidos e dos perfumes, ambos da casta dos vaishas, e suas interações com um despresível dalit e uma firanghi de costumes inaceitáveis, por ser estrangeira.
Quanto à película cinematográfica, uma linda história de amor é conduzida através de um programa televisivo que oferece grandes prêmios aos vencedores, e que, ao mesmo tempo, mostra a miséria e a violência reinantes no submundo do crime.
A novela e o filme têm em comum a revelação de uma inaceitável desordem urbana, tratando-se de um país considerado emergente, tal como o Brasil, a Rússia e a China, já altamente desenvolvido em vários setores. De fato, observa-se uma tremenda confusão no trânsito em importantes centros urbanos: não há mão nem contramão; inexistem sinais de controle; pessoas circulam juntamente com vacas, camelos, elefantes, caminhões, automóveis e os típicos tuc-tucs.
A sociedade e os costumes indianos são provavelmente os mais complexos do mundo, devido à multiplicidade de etnias, línguas, crenças, tradições e superstições; são 16 as línguas oficiais, havendo ainda dezenas de outras e incontáveis dialetos. Tal diversidade é decorrente das invasões sofridas pelo país ao longo de sua história, onde um dia prosperou a mais antiga das civilizações conhecidas, a dos Magas, que data de 2500 a.C.. É um caldeirão cultural.
Entre 1700 e 1200 a.C. os árias invadiram a região e nela introduziram um odioso sistema social fundado em castas, a saber: brâmanes, dos sacerdotes, professores e intelectuais; xátrias, dos militares, guerreiros e administradores; vaishas, dos comerciantes, fazendeiros e geradores de riquezas em geral ; sudras dos trabalhadores braçais e serviçais; parias, dos desocupados e sem profissão definida; e dalits ou intocáveis, reservada aos que, por motivos graves, tenham sido expulsos de suas castas, assim permanecendo até a 3ª geração em limpeza de ruas e de fossas, e serviços em crematórios.
No fim do século I a.C., houve a invasão dos indo-citas vindos da Pérsia oriental; na sequência, ocorreram invasões alternadas de persas e gregos. Os hunos, nômades bárbaros, lá estiveram no século VI, ocasião em que duas novas religiões surgiram ao lado do hinduísmo: o budismo e o jainismo. Os turcos lá apareceram no século VIII.
A invasão de maometanos no século X foi a que exerceu maior influência: cerca de ¼ da população foi convertida à força ao islamismo, religião que resguarda, mas discrimina violentamente as mulheres; podendo os homens possuir várias esposas, os invasores passaram a co-optar as jovens viúvas hindus. Este fato deu origem a um costume cruel entre os nativos, que era o de imolarem-se as viúvas nas piras funerárias de seus maridos. Exerceram eles grande influência na música.
No fim do século XV, lá aportaram os portugueses com o objetivo de estabelecer uma linha regular de comércio de especiarias, utilizando o caminho marítimo. Com eles seguiam missionários jesuítas e dominicanos, os quais se incumbiam de divulgar o cristianismo, como era de praxe.
No século XVII, os mongóis dominaram a Índia, implantando no norte daquele país importantes monumentos de arquitetura, compreendendo palácios, mesquitas com seus miraretes, e mausuléus, onde se destaca o Tajd Mahall, localizado na cidade de Agra, que aparece na abertura da novela.
Com a decadência dos mongóis, a península começou a ser disputada por franceses e ingleses no século XVIII; estes prevaleceram, e sua dominação durou cerca de 200 anos.
Em que pese seu nível de desenvolvimento muito mais elevado, os ingleses não se preocuparam muito em interferir nos costumes locais, cuja diversidade deveria favorecer sua dominação, exceto quanto à imposição do idioma inglês e a implantação de ferrovias, que asseguravam a integração do território.
Por fim, surgiu a extraordinária figura de GANDHI, líder espiritual e político que iniciou a luta pela independência da Índia em 1920, usando a estratégia da não-violência e da desobediência civil, cujos mentores teóricos foram RUSKIN, THOREAU e TOLSTOI, processo só concluído em 1947, mas sem o sacrifício de vidas humanas.
O que nem todos sabem é que GANDHI esforçou-se igualmente em prol da justiça social e contra a desordem urbana, em especial no que tange ao saneamento, logrando a aprovação de leis como a que proibiu o casamento de crianças e a que melhorou a quota das castas inferiores na representação política. A situação dos parias e dos dalits o incomodava ao extremo. Mas, só com o advento da constituição do país, após sua independência, foi abolido o regime de castas. As leis indianas atuais proibem qualquer tipo de discriminação motivada por casta, raça ou credo. São do famoso líder os textos abaixo:
“Não há nada mais tenaz do que um costume que se herda com um preconceito engastado no inconsciente.”
“Um dos grandes defeitos da Índia é a negligência em matéria de higiene pública. Os hindus observam um asseio meticuloso na cozinha e em suas pessoas, mas são negligentes quanto às ruas e aos quintais.”
De fato, o tão decantado Rio Ganges não passa de uma latrina há muito tempo, um cemitério ambulante repleto de cadáveres e animais mortos.
O povo, que não ouviu os apelos de GANDHI em oposição às práticas preconceituosas e costumes frívolos, não foi capaz de resistir ao processo de globalização em todos os campos, não sendo possível admitir-se que sua juventude tenha estado desconectada de tudo o que se passa ao redor do mundo, e ainda se submeta a modos de vida ultrapassados.
Sem dúvida, a autora GLÓRIA PERES resgata costumes antigos para tornar sua obra mais atraente, com seus rituais, seus “sáris”, “bindis” e jóias caras usadas cotidianamente, e não apenas em ocasiões especiais, e mostra cenas chocantes de preconceito explícito em conflito com a legislação indiana.
Quanto ao pagamento de dote e escolha dos noivos para seus filhos, trata-se de coisa já adotada aqui até o século XIX. Mas, ainda hoje, existem muitas senhoras que gostariam de poder escolher seus futuros genros e noras, convencidas de que o fariam melhor do que fizeram para si mesmas.
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