Vi PAULO DA PORTELA pela primeira e última vez em 1938, fazendo o carnaval de Cambuci. Eu, então com 8 anos, nada sabia sobre ele. Acontecia o mesmo com o resto da população, pois os meios de comunicação eram muito precários naquele tempo; no entanto, ele já se destacava no meio dos bambas do Rio de Janeiro, e fora eleito “Cidadão Samba” no ano anterior.
Dentre suas composições, as mais populares foram “Cocorocó”, “Guanabara (Cidade-mulher)”, “Quitandeiro” e “Pam-pam-pam-pam”; nesta última, lançou o ditado “Bata com a cabeça!”.
Sua preferência, como cantor, era por temas alegres e engraçados que lhe permitissem utilizar todos os seus recursos interpretativos; portava-se algumas vezes comicamente com sua expressão corporal, a facial em particular.
Para um sambista, sempre me pareceu muito delicada a letra de seu samba “Borboleta Buliçosa” (“Linda borboleta / Não sejas buliçosa / Deixa minha rosa / Sossegada em seu galho / É o meu prazer / Ao alvorecer / Vê-la tão bonita / E coberta de orvalho / E quando vem o sol / Enche ela de ouro / No jardim do pobre / É um tesouro”).
Nascido PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA em 18 junho de 1901, no morro da Saúde, transferiu-se em 1920 para a Estrada da Portela, no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz. Apesar de sua origem muito humilde, tornou-se uma figura emblemática na historia do samba, devido a sua atuação nas décadas de 30 e 40 do século passado. É, na verdade, um mito cultuado até hoje, tendo seu nome lembrado em composições de CARTOLA, MONARCO e NELSON CAVAQUINHO, entre outros, sendo deste, um ilustre mangueirense, o texto a seguir: “Mangueira é celeiro / De bambas como eu / Portela também teve / O Paulo que morreu / Mas o sambista mora eternamente / No coração da Gente”.
Lustrador por profissão, com 19 anos de idade começou a unir-se a operários e funcionários públicos em pequenos grupos carnavalescos, participando também de rodas-de-samba. Há divergências sobre se o “GRES PORTELA” originou-se do bloco “ Vai Como Pode”, que surgiu em 1923, ou do “Conjunto Oswaldo Cruz” criado em 1926; mas, como PAULO participou da fundação dos dois, ele sempre foi reconhecido como precursor também da PORTELA, que adotou este nome oficialmente em 1935, quando de sua instituição, sendo PAULO seu primeiro presidente e sua casa a sede da agremiação das cores azul e branca.
Cabe salientar que o nome de guerra de PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA deveu-se ao fato de residir ele na Estrada da Portela, onde, em 1920, começou sua trajetória no samba; da mesma forma, a escola-de-samba fundada em 1935 teve seu nome ligado àquela via, e não diretamente a PAULO DA PORTELA.
Pode-se supor que o prestígio do sambista deveu-se mais a sua personalidade e elegância, seu carisma e suas iniciativas do que a seu talento musical. Tendo ele se iniciado em uma época em que o samba não agradava à elite e era perseguido pelas autoridades, por ser preconceituosamente considerado coisa de vagabundo, trabalhou intensamente para mudar este quadro. Para isto, procurava apresentar-se sempre bem vestido, exigindo o mesmo de seus companheiros quando se reuniam em blocos carnavalescos, que primavam por sua organização mesmo quando o luxo ainda não imperava.
PAULO liderava o “Grupo Carioca” formado por artistas como HEITOR DOS PRAZERES, CARTOLA e SECUNDINO SILVA, atuando profissionalmente no eixo Rio – São Paulo e já com uma excursão realizada ao Uruguai. Em virtude destes seus compromissos, teve um sério desentendimento com a direção da PORTELA em 1937, quando foi proibido de desfilar no carnaval por ter se apresentado vestido inadequadamente, pois acabara de retornar de uma viagem, do que resultou seu afastamento da agremiação definitivamente. Por conta deste incidente, PAULO compôs o samba “O Meu Nome Já Caiu no Esquecimento” (“Chora Portela, minha Portela querida / Eu te fundei, serás minha todo a vida”).
Em 1938, o desfile foi prejudicado por fortes chuvas, não tendo havido julgamento porque a Comissão Julgadora não compareceu. A PORTELA não contou com o PAULO em consequência do desentendimento ocorrido no ano anterior.
PAULO foi escolhido para representar o samba nos Estados Unidos em 1939, cooptado que fora pela “Política de Boa Vizinhança” lançada por aquele país. Convidada por ele, a PORTELA também excursionou e apresentou-se lá. Estava assim quebrado o gelo entre PAULO e a sua PORTELA; no entanto o sambista não voltou mais a desfilar por ela, passando a fazer parte da LYRA DO AMOR até o fim da vida.
Até então, PAULO e a PORTELA confundiam-se; cada um era inteiramente dependente do outro. Ele era a atração maior nos desfiles; quando identificado, os aplausos irrompiam com intensidade, tal como ocorre hoje com as rainhas de bateria e os destaques desnudos. PORTELA era a grande vitrine e PAULO seu principal produto.
A década de 30 foi pródiga para a música popular brasileira com a “Época de Ouro do Rádio”. Já não havia aquela rejeição inicial ao gênero, que foi quebrada por artistas como ARY BARROSO, CARMEM MIRANDA, ATAULFO ALVES e DORIVAL CAYMMI, entre outros.
Com novas portas abertas, PAULO passou a movimentar-se com mais desembaraço: recebia ele, para entrevistas, professores e altas autoridades, inclusive estrangeiras; onde quer que o samba estivesse em discussão, lá estava ele; e comparecia às rádios com frequência para defender e valorizar a imagem do sambista.
Alguns dias antes do carnaval de 1941, PAULO manifestou o desejo de comemorá-lo fora, em uma roda de amigos em Oswaldo Cruz da qual participava o cambuciense PAULO DA CAROLA; ante o interesse demonstrado por este, ficou esclarecido que estava disposto a ir para qualquer cidade do interior do Estado que lhe proporcionasse, a ele e seu conjunto, passagens, hospedagem e alimentação. Passada esta informação para pessoas da família PERAZZO, o negócio foi fechado,não tanto por tratar-se de PAULO DA PORTELA, mas por serem excelentes as condições propostas.
PAULO desembarcou em Cambuci no sábado após um dia inteiro de viagem de trem, acompanhado de outros 6 músicos, sendo conduzido em seguida para o hotel, onde jantaram e descansaram até o dia seguinte, já que a festa só começaria domingo, como era usual.
O grupo realizava diariamente uma roda-de-samba à tardinha, junto ao chafariz do jardim de cima, e fazia o baile à noite no armazém de café que fica em frente ao fórum atual. SECUNDINO, cuiqueiro autor do sucesso “Helena”, era o esnobe da turma, pois chegava atrasado às rodas-de-samba só para dizer que estava escrevendo. A execução de um samba clássico obedecia ordinariamente à sequência: o cavaquinho entrava dando o tom e fazendo o centro; o surdo fazia a marcação; a cuíca, o contratempo; o violão, o contracanto; o pandeiro, a integração; o trombone, o contracanto e solo; e, à frente de todos para o solo vocal, PAULO DA PORTELA com seus 1,80 m de negritude.
Assim, com muita sorte e oportunismo, Cambuci conquistou o privilégio de ser a única cidade do mundo que teve um carnaval animado, com exclusividade, por PAULO DA PORTELA.
Sua vida intensa e curta, das mais produtivas para a música popular brasileira, foi bruscamente interrompido em 31 de janeiro de 1949, aos 48 anos, vitimado que foi por um enfarte em Madureira.
Dentre suas composições, as mais populares foram “Cocorocó”, “Guanabara (Cidade-mulher)”, “Quitandeiro” e “Pam-pam-pam-pam”; nesta última, lançou o ditado “Bata com a cabeça!”.
Sua preferência, como cantor, era por temas alegres e engraçados que lhe permitissem utilizar todos os seus recursos interpretativos; portava-se algumas vezes comicamente com sua expressão corporal, a facial em particular.
Para um sambista, sempre me pareceu muito delicada a letra de seu samba “Borboleta Buliçosa” (“Linda borboleta / Não sejas buliçosa / Deixa minha rosa / Sossegada em seu galho / É o meu prazer / Ao alvorecer / Vê-la tão bonita / E coberta de orvalho / E quando vem o sol / Enche ela de ouro / No jardim do pobre / É um tesouro”).
Nascido PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA em 18 junho de 1901, no morro da Saúde, transferiu-se em 1920 para a Estrada da Portela, no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz. Apesar de sua origem muito humilde, tornou-se uma figura emblemática na historia do samba, devido a sua atuação nas décadas de 30 e 40 do século passado. É, na verdade, um mito cultuado até hoje, tendo seu nome lembrado em composições de CARTOLA, MONARCO e NELSON CAVAQUINHO, entre outros, sendo deste, um ilustre mangueirense, o texto a seguir: “Mangueira é celeiro / De bambas como eu / Portela também teve / O Paulo que morreu / Mas o sambista mora eternamente / No coração da Gente”.
Lustrador por profissão, com 19 anos de idade começou a unir-se a operários e funcionários públicos em pequenos grupos carnavalescos, participando também de rodas-de-samba. Há divergências sobre se o “GRES PORTELA” originou-se do bloco “ Vai Como Pode”, que surgiu em 1923, ou do “Conjunto Oswaldo Cruz” criado em 1926; mas, como PAULO participou da fundação dos dois, ele sempre foi reconhecido como precursor também da PORTELA, que adotou este nome oficialmente em 1935, quando de sua instituição, sendo PAULO seu primeiro presidente e sua casa a sede da agremiação das cores azul e branca.
Cabe salientar que o nome de guerra de PAULO BENJAMIN DE OLIVEIRA deveu-se ao fato de residir ele na Estrada da Portela, onde, em 1920, começou sua trajetória no samba; da mesma forma, a escola-de-samba fundada em 1935 teve seu nome ligado àquela via, e não diretamente a PAULO DA PORTELA.
Pode-se supor que o prestígio do sambista deveu-se mais a sua personalidade e elegância, seu carisma e suas iniciativas do que a seu talento musical. Tendo ele se iniciado em uma época em que o samba não agradava à elite e era perseguido pelas autoridades, por ser preconceituosamente considerado coisa de vagabundo, trabalhou intensamente para mudar este quadro. Para isto, procurava apresentar-se sempre bem vestido, exigindo o mesmo de seus companheiros quando se reuniam em blocos carnavalescos, que primavam por sua organização mesmo quando o luxo ainda não imperava.
PAULO liderava o “Grupo Carioca” formado por artistas como HEITOR DOS PRAZERES, CARTOLA e SECUNDINO SILVA, atuando profissionalmente no eixo Rio – São Paulo e já com uma excursão realizada ao Uruguai. Em virtude destes seus compromissos, teve um sério desentendimento com a direção da PORTELA em 1937, quando foi proibido de desfilar no carnaval por ter se apresentado vestido inadequadamente, pois acabara de retornar de uma viagem, do que resultou seu afastamento da agremiação definitivamente. Por conta deste incidente, PAULO compôs o samba “O Meu Nome Já Caiu no Esquecimento” (“Chora Portela, minha Portela querida / Eu te fundei, serás minha todo a vida”).
Em 1938, o desfile foi prejudicado por fortes chuvas, não tendo havido julgamento porque a Comissão Julgadora não compareceu. A PORTELA não contou com o PAULO em consequência do desentendimento ocorrido no ano anterior.
PAULO foi escolhido para representar o samba nos Estados Unidos em 1939, cooptado que fora pela “Política de Boa Vizinhança” lançada por aquele país. Convidada por ele, a PORTELA também excursionou e apresentou-se lá. Estava assim quebrado o gelo entre PAULO e a sua PORTELA; no entanto o sambista não voltou mais a desfilar por ela, passando a fazer parte da LYRA DO AMOR até o fim da vida.
Até então, PAULO e a PORTELA confundiam-se; cada um era inteiramente dependente do outro. Ele era a atração maior nos desfiles; quando identificado, os aplausos irrompiam com intensidade, tal como ocorre hoje com as rainhas de bateria e os destaques desnudos. PORTELA era a grande vitrine e PAULO seu principal produto.
A década de 30 foi pródiga para a música popular brasileira com a “Época de Ouro do Rádio”. Já não havia aquela rejeição inicial ao gênero, que foi quebrada por artistas como ARY BARROSO, CARMEM MIRANDA, ATAULFO ALVES e DORIVAL CAYMMI, entre outros.
Com novas portas abertas, PAULO passou a movimentar-se com mais desembaraço: recebia ele, para entrevistas, professores e altas autoridades, inclusive estrangeiras; onde quer que o samba estivesse em discussão, lá estava ele; e comparecia às rádios com frequência para defender e valorizar a imagem do sambista.
Alguns dias antes do carnaval de 1941, PAULO manifestou o desejo de comemorá-lo fora, em uma roda de amigos em Oswaldo Cruz da qual participava o cambuciense PAULO DA CAROLA; ante o interesse demonstrado por este, ficou esclarecido que estava disposto a ir para qualquer cidade do interior do Estado que lhe proporcionasse, a ele e seu conjunto, passagens, hospedagem e alimentação. Passada esta informação para pessoas da família PERAZZO, o negócio foi fechado,não tanto por tratar-se de PAULO DA PORTELA, mas por serem excelentes as condições propostas.
PAULO desembarcou em Cambuci no sábado após um dia inteiro de viagem de trem, acompanhado de outros 6 músicos, sendo conduzido em seguida para o hotel, onde jantaram e descansaram até o dia seguinte, já que a festa só começaria domingo, como era usual.
O grupo realizava diariamente uma roda-de-samba à tardinha, junto ao chafariz do jardim de cima, e fazia o baile à noite no armazém de café que fica em frente ao fórum atual. SECUNDINO, cuiqueiro autor do sucesso “Helena”, era o esnobe da turma, pois chegava atrasado às rodas-de-samba só para dizer que estava escrevendo. A execução de um samba clássico obedecia ordinariamente à sequência: o cavaquinho entrava dando o tom e fazendo o centro; o surdo fazia a marcação; a cuíca, o contratempo; o violão, o contracanto; o pandeiro, a integração; o trombone, o contracanto e solo; e, à frente de todos para o solo vocal, PAULO DA PORTELA com seus 1,80 m de negritude.
Assim, com muita sorte e oportunismo, Cambuci conquistou o privilégio de ser a única cidade do mundo que teve um carnaval animado, com exclusividade, por PAULO DA PORTELA.
Sua vida intensa e curta, das mais produtivas para a música popular brasileira, foi bruscamente interrompido em 31 de janeiro de 1949, aos 48 anos, vitimado que foi por um enfarte em Madureira.
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