domingo, 10 de janeiro de 2010

Energia nuclear: perdição e salvação

No primeiro semestre de 1939, o físico dinamarquês NIELS BOHR chegou à Universidade de Princeton-U.S.A., onde já se encontrava EINSTEIN, levando-lhe uma importante novidade científica ligada à descoberta deste sobre a relação entre massa e a energia de um corpo, expressa pela conhecida fórmula E=mc2: em Berlim, OTTO HAN e FRITZ STRASMAN haviam conseguido bombardear o urânio com neutros, os quais foram cindidos em dois núcleos mais leves, enquanto uma pequena quantidade de massa perdida no processo fora transformada em energia. Isto era, na prática, a confirmação dos estudos teóricos de EINSTEIN sobre o assunto.

Em outra frente, o físico húngaro LEÓ SZILÁRD buscava maneiras de criar uma reação nuclear em cadeia; para ele, a descoberta da fissão do urânio pelos alemães, com liberação de calor, poderia ser utilizada em processo explosivo de grandes proporções. No entanto, EINSTEIN ainda duvidava da possibilidade de dominar-se a energia atômica e de aproveitar a potência implícita naquela fórmula, em que “c” significa a velocidade da luz, ou seja, 300.000 km/s.

Como judeu refugiado em virtude da perseguição dos nazistas, SZILÁRD chegou a Nova York, passando a trabalhar na Universidade de Colúmbia, onde discutiu o assunto com seu colega e compatriota EUGENE WIGNER. Ambos chegaram à conclusão de que deveria ser bloqueado o acesso dos alemães ao urânio do Congo Belga, e lembraram-se de pedir a EINSTEIN que agisse neste sentido junto à Rainha da Bélgica, de quem ele era grande amigo.

Contudo, a coisa evoluiu de maneira diferente: os dois físicos judeus acolhidos pelos U.S.A. acharam que seria mais razoável levar o assunto ao conhecimento do Governo daquele país, para o que, mais uma vez, valeram-se do prestígio de EINSTEIN. Solicitado, o grande cientista escreveu uma carta destinada a ser entregue diretamente ao Presidente ROOSEVELT; após várias tentativas frustradas através de diversos intermediários, ela foi finalmente entregue pelo banqueiro ALEXANDER SACHS, depois de dois meses de espera por uma oportunidade.

Àquela altura, final de agosto de 1939, os acontecimentos belicosos reinantes na Europa fizeram com que a Inglaterra e a França declarassem guerra à Alemanha, dando início à Segunda Grande Guerra Mundial. Embora os U.S.A. permanecessem neutros no conflito, o país começou a rearmar-se e desenvolver novas armas.

Considerando insatisfatório o ritmo dos trabalhos, e tendo conhecimento de que os nazistas procuravam acelerar suas pesquisas no mesmo campo, SZILÁRD impacientou-se e recorreu mais uma vez a EINSTEIN, o qual escreveu outra carta ao Presidente ROOSEVELT, que veio a dar origem ao ultrassecreto Projeto Manhattan, coordenado por OPPENHEIMER e responsável pelos estudos que culminaram com a construção da bomba atômica.

Embora convidado, o extraordinário EINSTEIN não participou pessoalmente dos trabalhos desenvolvidos pelo Projeto, limitando-se a responder a algumas consultas. Ele não se considerava um físico nuclear, e não gostava de envolvimento com autoridades governamentais. Além do mais, era um pacifista convicto, que defendia a criação de uma organização de âmbito mundial, armada, capaz de garantir a paz entre as nações. Do outro lado, muitos militares americanos influentes faziam restrições à sua participação no empreendimento, por não confiarem suficientemente nele.

Não sabemos exatamente quando as primeiras bombas atômicas ficaram prontas; o certo é que só foram usadas contra o Japão quando a guerra na Europa já estava decidida a favor dos aliados. O colossal impacto das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, além de provocar a imediata rendição incondicional do Japão, causou perplexidade no mundo inteiro com seu poder de destruição instantânea e as duradouras consequências das emissões radioativas.

Por sua vez, a Alemanha, provavelmente por estar, naquele momento da história, desfalcada de seus melhores cérebros em razão do expurgo levado a efeito contra os judeus, de forma indiscriminada, não alcançou o mesmo resultado no desenvolvimento da arma, o que teria sido um catástrofe universal. Este fato levou o não menos famoso físico alemão, não judeu, MAX PLANCK a alertar HITLER sobre os danos que tal política estava causando às universidades e aos centros de pesquisas alemães, ao que ele respondeu que preferia recomeçar do zero a conviver com “aquela gente”.

Posteriormente, a nova e poderosa arma foi desenvolvida pelas grandes potências militares da época, Rússia, Inglaterra e França, já tendo chegado à Índia, Israel, Paquistão e China, em versões cada vez mais destruidoras. Além disto, muitos outros países detêm conhecimento científico e tecnológico para produzi-la, e alguns almejam fazê-lo. Em que pesem tentativas tênues entre U.S.A. e a Rússia para reduzirem seus arsenais nucleares, o existente hoje no planeta seria capaz de destruí-lo em frações de segundo.

É natural, por conseguinte, que exista uma grande aversão ao uso da energia nuclear no seio do povo, onde se enxerga predominantemente seu lado negativo; no entanto, é sabido que são importantíssimas suas aplicações na indústria e na Medicina. Tal rejeição tem sido responsável por um grande atraso na implantação de novas usinas nucleares ao redor do mundo, os quais representam hoje a única alternativa economicamente viável de geração de energia elétrica limpa em grande escala, em contraposição às térmicas convencionais, todas altamente poluidoras.

Neste particular, o Brasil detém uma posição privilegiada para expandir seu parque de geração de energia elétrica de base nuclear, por possuir jazidas de urânio, dominar todo o ciclo de beneficiamento e de fabricação do combustível, e estar familiarizado com montagem de nucleoelétricas.

Embora compreensíveis, já não mais se justificam as reações, às vezes violentas, de organizações e autoridades contra o desenvolvimento de tal fonte de energia. De fato, os equipamentos em uso são cada vez mais seguros, e os riscos que poderão oferecer serão sempre pontuais, representados por pequenos vazamentos de radioatividade facilmente controláveis, o mesmo podendo-se dizer em relação aos resíduos do processo, o chamado “lixo atômico”. Eles não têm influência alguma sobre o já popular “efeito estufa”, alimentado fortemente por emissões de gás carbônico que se espalham pela atmosfera às toneladas, de que são campeões as termoelétricas a carvão.

Em alguns países industrializados, como o Japão, a Inglaterra e a China, entre outros, a energia elétrica utilizada é predominantemente de origem térmica, com destaque para as movidas a carvão. Por aqui, embora preponderem amplamente as fontes hidráulicas, usinas térmicas a carvão ou óleo têm sido construídas próximas aos grandes centros de consumo para complementação do sistema elétrico, o que é recomendável para sua estabilidade e segurança operacionais. Mas os aproveitamentos hidroelétricos esgotar-se-ão um dia, e são cada vez mais polêmicos do ponto de vista ambiental.

No curto prazo, vislumbro apenas as seguintes providências técnica e economicamente viáveis para produzir-se energia sem prejuízo do meio ambiente: em primeiro lugar, a construção em larga escala de usinas nucleares, combinada com o uso intensivo de energia elétrica na movimentação de veículos terrestres; e, em complemento, a captação direta de energia solar pelas casas para aquecimento, nas regiões ensolaradas.

As informações históricas contidas na parte inicial deste texto fundamentaram-se na monumental biografia intitulada “EINSTEIN – Sua Vida, Seu Universo”, de autoria de WALTER ISAACSON.

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