Passei minha infância na “Chácara do Sossego”, hoje integrada ao perímetro urbano da cidade de Cambuci, onde vivi muitas experiências agradáveis ao lado de meus pais, 9 irmãos, muitos empregados, primos e agregados. Era como se estivéssemos em permanente festa; de tudo aquilo:
-ficou o sabor das inúmeras e saborosas frutas, colhidas com minhas próprias mãos;
-ficou a alegria dos piqueniques na Caixa D’Água e de variadas brincadeiras infanto-juvenis;
-ficaram os sons dos caxambus à distância e das harmoniosas folias de reis, estas algumas vezes em nossa sala;
-ficou o encantamento das Festas de Maio, que culminavam com a coroação de Nossa Senhora;
-ficou a lembrança de nossos passeios à Fazenda do Retiro, quando viajávamos em carro de bois;
-ficou um pouco do temor provocado pelas assustadoras histórias de sacis-pererê, mulas sem cabeça e lobisomens que SÁ LUIZA contava às crianças, quando, chegada de sua roça, hospedava-se em nossa casa;
-ficou, ainda, a admiração que tínhamos ao ver aquela idosa e sinistra senhora fumar seu pequeno cachimbo de barro e cuspir, seguidamente, a
-ficou a lembrança daquelas noites de maio em que, descalço e com calças curtas, assistia aos leilões da igreja realizados sob o martelo do Sr. ROMUALDO MATOLA, tendo meu pai MANOEL GOMES como tesoureiro.
Expostos todos ao sereno e ao frio, um produto era regularmente oferecido pelo leiloeiro:
- Quanto me dão por uma dose de vinho do Porto “Madeira R” ? Já tenho um mil réis!
A extensão e as características do espaço físico exclusivo de que dispúnhamos para brincar permitiam-nos praticar inúmeras atividades divertidas e, às vezes, perigosas e preocupantes, sobretudo as que se realizavam sob inspiração de meu irmão SANTINHO. Eu, por exemplo, tinha muita dificuldade de subir em árvores, mas subia; até que desisti quando, no alto de um pé de jenipapo, pus a mão em cima de uma casa de marimbondos. Permitia, também, que tivéssemos muitas árvores – as frutíferas e as da capoeira - e criação de aves, porcos e cabras, além de uma enorme horta.
Um pequeno e movimentado campo de futebol foi construído na várzea, mas eu preferia treinar e jogar no infantil do FLORESTA A.C.; um dia chutei o chão e quase quebrei meu pé. O socorro foi rápido: o treinador ordenou que todos os garotos urinassem sobre a área afetada.
O projeto de minha mãe de produzir seda era muito interessante; contudo, não deu o resultado esperado. Dele restaram duas alas de amoreiras – suas folhas alimentavam as lagartas, o bicho da seda; as frutas, comíamos nós – que atraía uma infinidade de pássaros, sobretudo sanhaços e guachos, os quais eram impiedosamente caçados por mim e primos.
Vigiávamos atentamente as galinhas poedeiras; quando elas anunciavam seu feito em qualquer ponto do quintal, recolhíamos seus ovos e íamos correndo fazer um bate-bate, uma iguaria feita com ovos frescos crus batidos, com acréscimo de farinha de mandioca e açúcar.
Na lavagem de roupa daquele povo usava-se uma bacia de grandes dimensões, que nós utilizávamos também como embarcação nas grandes enchentes, em que a água represada do Valão Dantas atingia as partes mais baixas de nossa chácara. Saíamos de bacião, como a denominávamos, pelo mangueiral da TIA PITULA, causando admiração, espanto ou preocupação em muita gente.
A presença do TOMIX em minha infância, de meus irmãos menores e de todos os da casa foi muito importante e inesquecível. Cão mestiço forte e valente, de pelo curto e trigueiro, superinteligente e amigo fiel, servia ele para guarda, caça e brinquedo para as crianças. Qualquer pessoa ou animal que penetrasse em seu território sem os devidos cuidados seria atacado e expulso; sua docilidade com as crianças chamava a atenção, e não atacava quando estava fora dos estritos limites da propriedade. Matou dezenas de jararacas: de uma bocada, se estivessem enroladas; ou apanhadas pelo meio e sacudidas até partirem-se em duas, se
O TIO VICENTE, irmão mais velho e muito amigo da mamãe, também teve seus momentos com o TOMIX. Era ele um assíduo frequentador de nossa casa, onde mantinha longos papos
- Natalina, enquanto você tiver aí essa fera eu não vou mais visitá-la.
Minha mãe não pôde fazer nada porque o animal já criara sólidas raízes naquele território.
Aconteceu que, certo dia, entrou ele na loja de meu pai, que ficava na praça da cidade, e lá estava o TOMIX deitado. Bastante ressabiado, ele olhou para o bicho, que se levantou alegremente fazendo festa para ele, a qual se tornava mais efusiva à medida que estalava seus dedos. Rapidamente pensou:
Ato contínuo, saiu para a rua em direção à chácara, sempre estalando os dedos e recebendo em troca amigáveis manifestações do seu acompanhante. Caminhou até a porteira da chácara, que ficava a uma distância aproximada de
Tanto fez TOMIX que acabou picado na testa por uma cobra e, muito pior que isto, sendo castrado.
Valendo-se de seus conhecimentos, pegou no almoxarifado da loja um tubo de papelão duro, daqueles próprios para enrolar cetim, que mediam aproximadamente
Eis que a noite chegou, mas a energia não, deixando todos os logradouros às escuras. SANTINHO, então, reuniu seus companheiros de fuzarca, apanhou o artefato, acendeu-o e saiu pela praça, proporcionando uma iluminação feérica, para deslumbramento de todos. Porém, ao passar em frente a um bar, um taxista alcoolizado partiu em sua direção com o propósito de acabar com aquela cena. Disputaram, os dois, a posse do facho até que o intruso fez menção de tapar a saída do fogo. Sabedor do perigo que aquilo representava, SANTINHO largou o artefato na mão do outro e saiu fora. Deu-se uma explosão que arrebentou a mão do infeliz.
Havia na cidade uma baratinha, modelo de carro lançado naquela época que se tornou famoso, e que muita inveja deveria despertar em alguns, que também merece um lugar nesta história. Ela pertencia ao Padre ROCHA, que com ela desfilava muito à vontade e orgulhosamente pelas ruas do lugar. Eis que chegava ele de São João do Paraíso pela estrada que margeava terras da nossa chácara. Lá estava SANTINHO debaixo de uma goiabeira quando a avistou com a capota arriada, no rumo da cidade. De imediato, ocorreu-lhe pegar uma goiaba podre para – tudo indica – arremessá-la contra o parabrisa do veículo; contudo, desta vez não foi preciso em sua pontaria e acertou, em cheio, a testa do pároco, o qual seguiu em frente como pôde, sem reclamar.
A vítima, já antiga na cidade, conhecia bem sua jurisdição e seus paroquianos, e não teve dificuldade em intuir de quem poderia ter partido aquela provocação. Dias depois, haveria aula de catecismo ministrada pessoalmente por ele, à qual SANTINHO deveria comparecer. Preocupado com o acontecido, sobre o qual só ele e o seu padre tinham conhecimento, disse à sua mamãe que não queria ir à aula na igreja, obtendo a seguinte resposta:
- Nada disto! Já na semana passada você comeu banana d’água só para ficar com dor de cabeça e não ir lá; mas hoje você vai nem que seja arrastado pelas orelhas.
E lá foi ele bastante assustado.
Ao vê-lo ao seu alcance, deve ter pensado o padre:
- É hoje que eu começo a acertar as contas com este pirralho!
Ele tinha por hábito ministrar suas aulas com uma vareta ponteaguda na mão. SANTINHO, que mais tarde o reconhecemos como um hiperativo, tinha grande dificuldade de assistir às aulas da escola ou, mesmo, de permanecer parado em qualquer lugar, sendo muito fácil imaginar sua situação em uma aula de catecismo. Por isto, ele distraia-se com frequência, e, quando tal ocorria, era futucado bruscamente nas costelas com a pergunta:
- Não é mesmo, Seu MANOEL DOS SANTOS?!
Assim, recebeu ele de
Mas havia uma grande predominância das atividades lúdicas tranquilas e ingênuas desenvolvidas pelos menores. A cada novo ano repetia-se esta brincadeira: o vento do noroeste, que soprava então com regularidade no mês de agosto, já nos encontrava equipados com grandes e multicoloridas pipas habilidosamente confeccionadas por meu pai. Nós a empinávamos alegremente ao cair daquelas tardes.
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