sábado, 6 de março de 2010

O feijão da comadre

Meu saudoso pai, embora tenha sido uma pessoa fundamentalmente mansa, era bastante exigente em relação a certos assuntos domésticos. Assim, por exemplo, e talvez por ter sido um autodidata, ele não admitia que seus filhos faltassem a aulas por motivos fúteis, e achava que tirar a nota máxima em provas ou trabalhos escolares não era mais do que uma obrigação, para quem não tinha outros compromissos.

Minha mãe, que foi uma mulher preparada para os serviços do lar, filha de uma emérita cozinheira, a vó Ambrozina, emerava-se no comando da cozinha a fim de que pudesse servir ao marido refeições de qualidade. Mas os elogios eram muito raros e sempre incompletos da parte dele, atingindo apenas um ou outro prato.

Além de raros, tais elogios nunca eram espontâneos. Quando provocado, valia-se ele de respostas padronizadas para cada situação: se a comida não merecesse elogio algum, caberia um “Come-se!”; ao contrário, se tudo estivesse ótimo, viria então um “Está bom, não está ruim não!”

Certo dia, apareceu em nossa chácara um fornecedor em domicílio oferecendo um feijão novo e de boa procedência, do qual lhe foi adquirida uma grande quantidade; daí, cuidou-se logo de dar àquele produto um tratamento condigno e levá-lo à mesa no almoço do dia seguinte. Confiante, minha mãe acreditava que iria haver uma aprovação imediata daquela vez. Mas vejam o que aconteceu!

Terminada a refeição, não houve comentário algum, o que a levou a indagar:
- Como é Manoel!? gostou do feijão?

Ao que ele respondeu:
- Está bom, não está ruim não!

E prosseguiu:
- Mas feijão bom mesmo é o da comadre Bidoca!

Apesar de tratar-se de uma respeitável senhora e de não ser meu pai homem dado a aventuras, mamãe ficou irritadíssima com o fato, e resolveu tirar as coisas a limpo; afinal, parecia absurda a idéia de que ainda não fosse capaz de fazer um feijão.

Assim foi que se dirigiu à casa de Dª Bidoca, que não ficava longe, e, mesmo não sendo esta sua intenção inicial, resolveu abrir logo o jogo com ela, pois só assim conseguiria justificar aquela matinal e inesperada visita.

Como se tratava de pessoa merecedora de sua maior consideração, Dª Bidoca a recebeu muito bem; contudo, não aceitou colocar-se como sua professora, admitindo apenas confrontar os passos seguidos por ambas para ver se havia alguma diferença significativa no procedimento.

De posse de um feijão novo e de primeira qualidade, verificou-se que: o deixavam de molho de véspera em água fria; o fogão utilizado era de lenha nas duas casas; as panelas eram de ferro e idênticas; nenhuma diferença havia no refogado, à base de gordura de porco, sal e alho; e era tudo igual no cozimento.

Por fim, lembrou-se Dª Bidoca de um pequeno detalhe, e disse:
- Comadre Natalina, não sei se você faz assim, mas eu não ario minha panela de feijão, que é para não tirar todo o fermento.

Estava deslindado o grande mistério: era aquele gostinho ao longe de coisa passada o que dava o sabor tão especial ao feijão.

Para os leitores mais jovens, fica esclarecido que, naquele tempo, ainda não se usavam geladeiras por aqui, de modo que grande parte dos alimentos não consumidos pelas pessoas no mesmo dia era destinada à lavagem dos porcos.

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