O calor tem estado escaldante por aqui, todos já perceberam; e agora, além das temperaturas indicadas nos termômetros tradicionais, temos que nos preocupar também com a moderna sensação térmica, segundo a qual a temperatura equivalente à que temos estado expostos chega a atingir 50º C – pelo menos, é o que dizem. É o caso, por exemplo, em que temos efetivamente 40ºC e não corre uma aragem sequer.
Nos grandes centros urbanos, onde a situação parece ser mais grave, os hospitais e postos de saúde vivem superlotados com pessoas vítimas de desidratação e insolação, sobretudo crianças e idosos, tendo ocorrido 32 óbitos na cidade de Santos-SP em apenas 3 dias. Competições esportivas em horários impróprios já vitimaram atletas em vários pontos do País, e muitos devem ter assistido pela televisão, há alguns dias, um repórter desmaiar repentinamente diante da câmera.
Seria desejável, portanto, que fossem tomadas todas as medidas preventivas possíveis no sentido de proporcionar mais conforto aos cidadãos, e não a imposição de costumes arcaicos e inadequados ao nosso clima, como é o caso do uso do paletó e gravata, pois se trata de uma questão de saúde pública.
São dignas de pena as pessoas que, em pleno verão, andam pelas ruas expostas ao sol em traje passeio completo, dentre elas advogados, despachantes e representantes comerciais, bem como autoridades públicas, algumas assemelhando-se a Judas engravatados. Cumpre, a maioria, exigências de repartições públicas, notadamente de tribunais, ou de organizações privadas. O pressuposto é que a dignidade das pessoas está vinculada à sua maneira de vestir-se, o que é um engano: de fato, bandidões de carinha boa e muito bem vestidos circulam por aí praticando contravenções e crimes, até hediondos.
Quando, no século XIX, ingleses, franceses e outros europeus resolveram lotear entre si terras da África para nelas estabelecerem colônias, deixaram para trás suas ceroulas, roupas e meias de lã, sobretudos, chapéus de lebre e boinas, luvas de couro e botas forradas e impermeáveis, e cuidaram logo de confeccionar trajes de algodão e linho, compostos de bermudões, jalecos, chapéus de abas largas e sandálias leves.
No Brasil, o Presidente JÂNIO QUADROS parece ter sido o único governante sensível ao problema, já que instituiu, para seu uso, uma espécie de uniforme funcional que o liberava do paletó e da gravata. Talvez pretendesse ir além, regulamentando a matéria no serviço público; porém renunciou antes, e aquele seu exemplo não foi aproveitado por seus sucessores.
Quem usa tal indumentária nos dias comuns pode ainda ficar sujeito a chacota, inveja ou preconceito, como no caso relatado a seguir.
Quando LEONEL BRIZOLA assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro – e por ser um político populista-, transmitiu instruções a seus imediatos no sentido de que as pessoas humildes fossem bem acolhidas nas repartições, o que foi uma medida muito louvável.
Naquela mesma época, eu trabalhava em FUNAS e, em razão do cargo que lá exercia, era obrigado a apresentar-me com paletó e gravata. Eu estava empenhado em resolver um problema de pessoa amiga junto ao Controle Médico do Estado, localizado próximo à Praça Tiradentes, o que me fazia aproveitar o intervalo do almoço para agir, saindo como estava vestido e tomando um táxi para deslocar-me de Botafogo ao Centro rapidamente.
Contudo, a má vontade que eu encontrava no Controle Médico era acintosa e absurda: os funcionários simplesmente fingiam que não me estavam vendo no guichê, e tampouco percebiam os meus chamados. Quando, por fim, me ouviam era para dizer que a enfermeira-chefe, a quem eu deveria dirigir-me, não poderia atender-me naquele momento. Impossibilitado de esperar, ia embora para voltar em um outro dia, quando tudo recomeçaria.
Até que, talvez lá pela minha 5ª ou 6ª tentativa, aquela digníssima servidora consentiu em receber-me; fez-me algumas perguntas pertinentes, dentre elas sobre o endereço do interessado. Quando lhe informei que era na Rua Enfermeira Lúcia Luciano Robaina, ela, teatralmente, disse:
- Não acredito! Uma enfermeira com nome de rua nessa cidade!?
Ao que eu, de pronto, respondi:
- É que, por lá, o valor dá-se a quem o tem! Além de excelente profissional, foi ela uma pessoa muito querida devido à cortesia que dispensava igualmente a todos.
Aquela arrogante chefe não disse mais nada, e recolheu-se visivelmente envergonhada; e o caso foi rapidamente resolvido dali pra frente.
A impressão que me ficou foi a de que a orientação de BRIZOLA foi mal interpretada na ponta do sistema, em que “atender bem aos humildes” implicava necessariamente desdenhar os que assim não parecessem.
O Brasil já não é mais um país subdesenvolvido ao ponto de persistir com esta prática descabida e nociva sob vários aspectos.
Um comentário:
http://caiafarsa.wordpress.com/ex-pastor-presbiteriano/
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