sábado, 9 de janeiro de 2010

Apagões

Tem-se entendido por apagão a interrupção, por longo tempo, do suprimento de energia elétrica a extensas áreas territoriais e a um grande número de consumidores, tal como ocorreu recentemente.

Pode-se dizer que os eventos enquadráveis na definição supra são próprios dos grandes sistemas elétricos interligados; de fato, se os sistemas elétricos fossem aqui isolados à moda antiga, as consequências de um problema afetaria apenas uma região, mas poderia ser por período de tempo extremamente longo, dependendo da gravidade do acidente ocorrido, uma vez que não poderiam socorrer-se em outras fontes.

Um sistema elétrico interligado, como é o nosso, oferece inúmeras vantagens técnicas e econômicas, dentre as quais a mais relevante é a possibilidade de transferência de energia de uma macro-região para outra, quando isto se faz necessário; contudo, também ele está sujeito a falhas, as quais poderão ser muito graves se atingirem as linhas de transmissão pesadas e determinadas instalações críticas.

Os principais responsáveis pela operação da grande rede, o Operador Nacional do Sistema – ONS e FURNAS, monitoram sistematicamente a confiabilidade do serviço em toda a área coberta pelo sistema, sendo possível conhecer-se por antecipação qual será a repercussão da perda acidental de qualquer linha de transmissão, subestação ou unidade geradora. Assim, através de tais estudos, eles sabiam que o desligamento, por qualquer motivo, de até 2 das linhas de transmissão em 750 kV do trecho ITAIPU – SÃO PAULO não seria suficiente para derrubar todo o sistema, mesmo no horário de ponta, o que só aconteceria se fossem desligadas todas as 3 linhas de corrente alternada existentes; e foi justamente isto que aconteceu no recente apagão, pelo que se informa.

As principais indagações da população em geral sobre a ocorrência em causa são as seguintes: ela poderia ter sido evitada? O restabelecimento poderia ter sido mais rápido?

Quanto à primeira questão, é certo que a existência de outras linhas ligando ITAIPU a SÃO PAULO aumentaria significativamente a confiabilidade do sistema naquele percurso. No entanto, os pontos críticos do sistema abrangem também outras linhas e subestações; seria então o caso de, por exemplo, duplicarem-se todas essas instalações.

Outra hipótese seria a implantação de usinas térmicas de grande potência mantidas em permanente funcionamento no entorno das megalópoles, já que elas, especialmente as nucleares, levam muito tempo até que possam entrar em carga. Infelizmente, nossos grandes centros de consumo situam-se muito distantes dos maiores aproveitamentos hidrelétricos.

Vê-se, por conseguinte, que as soluções aqui apontadas seriam extremamente onerosas e elevariam sobremaneira o preço da energia entregue ao consumidor, além do inconveniente das emissões poluidoras das termelétricas convencionais, se for esta a opção.

Não se deve, contudo, afastar de todo a hipótese de negligenciamento na manutenção das linhas de transmissão, já que, nos últimos tempos, FURNAS tem aplicado em seus serviços quantias inferiores às dotações orçamentárias previstas, ao mesmo tempo em que têm se tornado mais intensas as descargas elétricas atmosféricas e as precipitações pluviométricas, principalmente na Região Sul e no Estado de São Paulo, fatores estes prejudiciais ao isolamento de um modo geral e, mais ainda, das linhas que operam em extra-alta tensão.

O que é de mais difícil entendimento pelo público é a razão pela qual a falha de um componente do sistema ser capaz de provocar o desligamento em cascata dos demais, quando aquele componente é crítico, ou seja, quando a carga suportada por ele não pode ser transferida para aqueles, sob pena de colocá-los em sobrecarga. É que todas as instalações possuem proteção contra o excesso de carga, desligando automaticamente os respectivos circuitos quando tal ocorre.

Por analogia, se um peso for suportado por várias cordas e cabos que atuem no limite de suas resistência à tração, o rompimento de um ou alguns deles ocasionará a ruptura de todos os outros quase simultaneamente. Quando ocorre um apagão, todas as linhas de transmissão, subestações e unidades geradoras ficam desligadas.

O restabelecimento de todo um sistema elétrico integrado demanda um tempo considerável e até imprevisível muitas vezes, pois implica as seguintes medidas sucessivamente: 1) localização e isolamento do defeito ou defeitos; 2) escolha da usina geradora para dar início ao procedimento, com sincronização de suas unidades geradoras ao nível do barramento da subestação; 3) energização de todo o sistema de transmissão, incluindo as subestações; 4) sincronização com o sistema das unidades geradoras selecionadas para entrar em operação; 5) ligação progressiva dos blocos de carga. Trata-se de uma operação que coloca sob forte estresse todos os profissionais diretamente envolvidos nela.

Dependendo de sua configuração física, bem como da geração e da carga próprias de um subsistema, poderá ocorrer o seu ilhamento, que significa mantê-lo desconectado do sistema principal, mas em condições de atender a seus consumidores. É possível que, com investimentos razoáveis, outros subsistemas, além do da Região Sul, possam ser implantados, reduzindo assim o impacto de tais acidentes.

De minha parte, o que posso hoje fazer de útil para meus possíveis leitores é dar-lhes uma dica: a interrupção abrupta de energia elétrica é indicativa de defeito próximo, local ou regional, e normalmente de curta duração; mas quando ela é antecedida de uma flutuação da iluminação até extinguir-se, é sinal de que o problema vem de longe e é grave, tratando-se de um apagão.

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